Terremotos causam pânico, fazem história e inspiram piadas

SP não experimentou sismos devastadores, como Lisboa, mas em 1922 um tremor mobilizou a cidade

Marcos Guterman, estadao.com.br

23 de abril de 2008 | 14h33

Quando a terra treme, até a história muda. Não é o caso do que aconteceu na noite desta terça-feira em São Paulo, claro, mas mesmo pequenos sismos têm o potencial de deixar marcas, ainda que imaginárias - afinal, se há um instante em que tudo parece perto de acabar, em meio a uma enorme sensação de impotência, esse instante é o do terremoto. Que o digam os moradores de San Francisco, cidade americana atingida por um devastador sismo em 1906 e que vive a expectativa de um novo apocalipse a qualquer momento.   VEJA TAMBÉM Maior tremor do País em 10 anos surpreende especialistas 'Cadeira se moveu de um lado para outro', diz engenheiro No litoral, tremor assusta a população de Santos Moradores do Rio sentiram abalo por 2 segundos Os dez tremores mais intensos no Brasil     Em San Francisco, morreram 3.000 pessoas, e isso numa cidade de 350 mil habitantes é um bocado de gente. Os americanos da Costa Oeste, orgulhosos de seu vertiginoso crescimento como resultado da industrialização acelerada desde o século 19, se viram subitamente privados "do maquinário comum da civilização", como disse um artigo publicado no San Francisco Examiner na época. Resultado: a prefeitura teve de baixar a lei do "shoot to kill", isto é, saqueadores deveriam ser abatidos a tiros. Isso dá a noção exata do nível de barbárie instalado no lugar onde antes vicejava o progresso.   Outro famoso terremoto, o de Lisboa em 1755, deixou Portugal em semelhante crise de identidade. Um país profundamente religioso se questionava como fora possível sofrer tamanho castigo das forças da natureza, supostamente comandadas por aquele a quem eles tanto temiam e respeitavam. Muitas das até 60 mil vítimas do terremoto morreram porque estavam rezando em igrejas que desabaram. Até Voltaire aproveitou a ocasião para perguntar, ironicamente, que Deus era esse que permitia uma tragédia como aquela.   A tese da vingança divina contra os portugueses - vingança pela escravidão, pela hipocrisia religiosa e pela indolência travestida de nobreza - foi invocada com certo sucesso na ocasião e mesmo depois. Não é de todo improvável que a resolução pombalina de reconstruir Lisboa sob o signo do absolutismo reformista tenha se inspirado numa espécie de purgação da nação.   Mas aqui não estamos falando de terremotos dessa magnitude sísmica e histórica - afinal, o Brasil não está sujeito a coisas desse tipo. Até por essa razão, porém, um tremor como o desta terça-feira, incapaz de causar danos significativos, é forte o bastante para inspirar pânico, mobilizar atenções e provocar reflexões teológicas. Na mesma São Paulo, em janeiro de 1922, um sismo de grande intensidade "foi o assunto obrigatório", segundo o registro de 'O Estado de S. Paulo'.   Nada rivalizou com o fenômeno, apesar de o Brasil estar em meio a uma campanha eleitoral, e o Vaticano, em plena sucessão do papa Bento XV. "Nem as candidaturas presidenciais, nem o palpite sobre o cardeal mais papável, nem outro qualquer assunto de maior importância ou curiosidade logrou ontem granjear a atenção e sustentar cinco minutos de palestra entre duas quaisquer pessoas que se encontrassem", afirmou o jornal.   Em meio ao tumulto de gente que "saltava dos leitos, correndo mesmo para a rua e manifestando as suas impressões pelas maneiras mais desencontradas", houve quem visse no fenômeno uma expressão da fúria de Deus e de "almas do outro mundo". Mas houve também quem fizesse piada disso, como garotos que se divertiam pela cidade, cantando: "O papa morreu/A terra tremeu...".

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