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Luis Fernando Verissimo
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Terra vermelha

'Tudo dava em São Paulo, não apenas café. E havia a industrialização'

Luis Fernando Verissimo,

24 de janeiro de 2014 | 23h50

Minha lembrança mais remota de São Paulo é da terra vermelha. Nós estávamos indo de Porto Alegre para o Rio de avião (Varig? Vasp? Real? Cruzeiro do Sul?) e o voo fazia escala em São Paulo. Não descemos do avião. Me lembro de ver a terra vermelha pela janelinha. Havia a pista de decolagem e pouso coberta de cimento e o resto era terra batida, de um vermelho vivo que eu não conhecia. E o prédio do aeroporto - pelo menos comparado ao Santos Dumont, no Rio, nosso destino final - era modesto. No Santos Dumont não se via terra de cor alguma, só cimento. Imagino que o pequeno aeroporto paulista fosse Congonhas. Isto faz tanto tempo que ainda não se falava do perigo de ter um aeroporto no meio da cidade. A cidade ainda não chegara a Congonhas.

Se dizia que São Paulo estava crescendo muito e que o segredo do seu desenvolvimento era a terra vermelha. Tudo dava em São Paulo, não apenas café. E havia a industrialização. Já se começava a falar de São Paulo como a locomotiva do Brasil, uma locomotiva que não podia parar. Mas aquele aeroporto raquítico, no qual a gente nem descia, não recomendava a cidade. Então o progresso era aquilo?

É preciso dizer que a minha referência de aeroporto não era nem o do Rio, era o de Porto Alegre. Meu pai contava que certa vez chegara dos Estados Unidos e fora ver a família em Cruz Alta, sua cidade natal, no interior do Rio Grande do Sul. Encontrara um amigo a quem relatara sua viagem e ouvira dele, que nunca tinha ido a lugar nenhum, o comentário ponderado: "Os Estados Unidos têm progredido muito", e um adendo melancólico: "Já Cruz Alta..." Tudo, afinal, depende de parâmetros. Para o garoto que eu era, olhando pela janelinha do avião, São Paulo decididamente não impressionava, comparado com Porto Alegre, ou até com Cruz Alta.

Anos depois, desci do avião e conheci a verdadeira São Paulo, a São Paulo que crescia e o aeroporto desmentia. E uma lembrança me vem como uma lufada de ar frio: o cinema Ipiranga (era isto?) perto da esquina com a São João, que tinha poltronas estofadas - e ar condicionado! Um dos inegáveis produtos da terra vermelha.

Luis Fernando Verissimo é escritor e colunista do Estado.

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