Ter uma rotina, o sonho de Alexandre

Ex-interno da Fundação Casa diz que o mais difícil é reaprender a viver do 'lado de fora'

Bruno Paes Manso, O Estado de S.Paulo

30 de agosto de 2010 | 00h00

Fazer aulas em autoescola para conseguir habilitação. Ir ao shopping, assistir a um filme no cinema, com direito a pipoca. Andar na calçada em vez de caminhar no meio da rua, sem medo de ser enquadrado pela polícia. Engordar e ter aparência saudável.

Fatos banais para a maioria, um cotidiano calmo e simples vale muito para Alexandre, de 18 anos, que mora em Sapopemba, na zona leste. Ele tenta mudar de vida desde que cumpriu sua última medida de internação na Fundação Casa, no dia 24 de dezembro do ano passado.

Alexandre conta que começou no caminho do crime aos 12 anos, quando passou a fumar cigarro e maconha no pátio da escola. As conversas escolares giravam em torno das "correrias" e da adrenalina dos assaltos feitos pelos amigos. Aos 14, já havia decidido: viraria ladrão. Decisão que levou a mãe ao desespero.

Ao longo de quatro anos, praticou assaltos à mão armada, traficou drogas e usava o dinheiro para baladas regadas a cocaína. Foi internado três vezes e formou uma visão clara dos resultados das medidas de internação. "Quando você está preso, a visão do mundo fica estreita. As conversas giram em torno do crime. Só pensa em conseguir roubos maiores, vira um homem-bomba, revoltado, disposto a tudo."

Depois de cumprir a internação, ele conta que saía com a clara sensação de que "não sabia viver do lado de fora". "Eu não conseguia ter uma rotina normal. Só sabia viver em função de roubos. Conseguia R$ 1 mil e ia usar drogas. Achava que a vida era isso."

O desejo de mudança veio quando estava no fundo do poço, 20 quilos mais magro, com doença sexualmente transmissível, sem conseguir escapar do círculo vicioso. O vínculo que vinha mantendo com um educador que o acompanhava desde a segunda internação foi o fator decisivo para mudar.

"Ele ajudou a me matricular em um curso de padeiro. Fomos juntos em um Sesc. São coisas simples, mas que me deixavam feliz e me mostravam que eu conseguiria voltar a ter uma rotina normal. Percebi que o mundo do crime é uma ilusão. E sem esse apoio eu não reaprenderia a viver a realidade", diz.

Na visão de Alexandre, a receita capaz de mudar a trajetória de jovens envolvidos no universo criminal é clara: "Ele precisa criar um vínculo do lado de fora com alguém que seja sincero e realmente esteja disposto a apoiar a decisão de mudança. Porque depois de preso, o mais difícil é reaprender a viver do lado de fora."

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