'Tensão Pré-Natal' já ataca 51 dias antes

Luzinhas, árvores e Papais Noéis espalhados pela cidade trazem sensação de que ano acabou

DENIZE GUEDES, O Estado de S.Paulo

04 de novembro de 2012 | 02h05

É como se Michele tivesse atravessado um túnel do tempo. Ontem mesmo era Dia da Criança e hoje já é véspera de Natal. Simples assim, com as primeiras aparições de Papais Noéis, luzinhas e árvores natalinas por São Paulo, ainda em meados de outubro, começou o estresse da estudante de Relações Internacionais. Em uma espécie de "Tensão Pré-Natal", a "TPN".

"Eu tinha uma lista de livros que queria ter lido neste ano, uma de filmes que queria ter visto, outra de viagens que queria ter feito", elenca Michele Fleury, de 22 anos. "Aparecem os enfeites e já vou sentindo bater uma angústia."

A professora do Departamento de Psicologia Clínica da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) Isabel Labate diz que a decoração antecipada de Natal pode dar a impressão de uma distorção no tempo. "Parece que o ano já acabou. Mas ainda restam dois meses."

Além de cobranças como as de Michele, a "TPN" traz a preocupação com compra de presentes, lugar onde passar a ceia, encontro com aquele parente de quem não se gosta tanto. Tudo em uma data que é emotiva por si só. "Atendo há 30 anos e vejo que nesta época os consultórios ficam mais cheios. É quando as pessoas estão mais sensíveis", diz Isabel.

Para a conselheira do Conselho Regional de Psicologia (CRP-SP) Fernanda Lavarello é importante não se deixar levar pela onda de pressão. "Agir com tranquilidade e separar o que não deu certo, porque não se planejou, daquilo que não deu, porque nem dependia da gente."

Olhando por esse lado, Michele até reconhece que fez muito - afinal, viajou de férias para Portugal, como planejado, seguiu na academia, como planejado, perseverou nos cursos de francês e espanhol, como planejado. "Mas só saí de virar a noite (na balada) uma vez", ressalva.

Susto. Ao contrário da estudante, o securitário James Dipold, de 31 anos, não levou um susto tão grande ao ver árvore, coreto e mensagens natalinas garrafais na entrada do Shopping Center 3, na Avenida Paulista, região central, na quinta-feira. "Fiquei surpreso. Mas é só mais um ano que passa, tranquilo."

Fato é que, para disparar a "TPN" dos paulistanos, o centro de compras inaugurou ontem sua decoração completa - com laser e luzes de LED. Center Norte, na zona norte, e Tamboré, em Barueri, também.

"O nosso mundo externo é projeção do interno. Se a pessoa está endividada, por exemplo, vai olhar os enfeites e se sentir pressionada por não poder comprar. Se está bem, verá com prazer", diz Isabel, da PUC-SP.

Mas se depender da atendente de enfermagem Luciene Gomes, de 53 anos, Papai Noel está até atrasado. "Já montei a minha árvore. Só faltava a ponteira, que comprei agora", contou ela na semana passada, na já bem natalina Rua 25 de Março, no centro.

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