Marcos de Paula/AE
Marcos de Paula/AE

''Tenho vontade de cavar com minhas mãos e tirar essa terra''

Desesperados, familiares dos três bombeiros soterrados em Nova Friburgo acompanharam o trabalho de busca por sobreviventes; comandante da Defesa Civil chorou ao falar dos colegas desaparecidos durante resgate

Felipe Werneck, O Estado de S.Paulo

13 Janeiro 2011 | 00h00

"Eu preciso de uma pá e uma motosserra, dois estão vivos", gritou um dos bombeiros do alto da montanha de terra, às 16h48 de ontem. Foi o primeiro sinal de esperança em um dia marcado pela tragédia na pacata Nova Friburgo, que, até aquele momento, havia resultado oficialmente na morte de 11 pessoas e deixara três bombeiros desaparecidos.

O grito foi justamente por causa dos colegas soterrados na madrugada por uma avalanche de terra, ao chegarem para salvar vidas. O local, no centro da cidade, parecia uma Serra Pelada urbana, com dezenas de bombeiros e voluntários em busca de sobreviventes do soterramento de duas casas e duas lajes e desabamento parcial de um prédio de quatro andares.

O sargento Marco Antonio Werli da Conceição, de 42 anos, estava dormindo quando o telefone de sua casa tocou, contou a mulher dele, Isolina Freiman, de 47, que acompanhava o desfecho do resgate ao lado do filho, de 22 anos, e da nora. Era uma convocação. O sargento saiu de casa às 4h20 e foi de carro para o epicentro da tragédia, provocada pela chuva, que se espalhou por outros pontos de Nova Friburgo.

Prima de outro bombeiro soterrado, Fernanda Lembo se desesperou. "Eu quero meu primo vivo", gritava, chorando, a prima de Victor Lembo Spinelli, de 29 anos. "Tenho vontade de cavar com as minhas mãos e tirar essa terra toda, com uma força que eu nem sei de onde vem", disse Fernanda, que foi impedida pelo marido de chegar perto do local do resgate. "Não quero só ele (Victor). Quero todos vivos", completou a moça.

Mais calma, outra prima de Victor, Angela Spinelli Kunst, lembrou a tragédia do Haiti, no ano passado, quando um terremoto matou mais de 230 mil pessoas. O tremor completou um ano ontem. "Estamos sem luz, sem telefone, sem água e sem informação, mas, sei lá, no Haiti uma mulher ficou quatro dias debaixo dos escombros. A gente fica naquela esperança, né?" Um dos bombeiros envolvidos no resgate, Ricardo do Santos Loureiro, de 42 anos, do Grupamento de Buscas e Salvamento, atuou na Missão de Paz no Haiti e disse que a maior dificuldade em Nova Friburgo, assim como ocorreu nas tragédias de Angra dos Reis e no Morro do Bumba, em Niterói, em 2010, é que, por se tratar de deslizamentos de terra, não é possível visualizar a estrutura das casas.

"No Haiti foi diferente. Apesar da magnitude muito maior e do trabalho exaustivo, lá era possível ver as estruturas. Aqui é trabalho no escuro", disse. O terceiro soldado desaparecido não tinha sido identificado. Até as 18 horas de ontem, o resgate dos bombeiros não havia sido concluído.

O comandante da Defesa Civil local, Roberto Roubadey, começou a chorar ao falar dos colegas. "Nunca tivemos uma chuva como esta na cidade", disse.

Além dos três bombeiros desaparecidos, quatro que integravam a mesma equipe foram resgatados e levados para uma maternidade da Prefeitura que funcionou como hospital improvisado. Até o fim da tarde de ontem, três tinham sido liberados e um soldado transferido para outro hospital.

"Desceu uma avalanche. Nunca vi um quadro igual na minha vida", disse o vice-governador Luiz Fernando Pezão, que sobrevoou o local e visitou a cidade.

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