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Temos vagas para morcego

Nas florestas de Bornéu vive uma planta carnívora chamada Nepenthes hemsleyana. Como você vai ver, a relação que esta planta tem com insetos e morcegos é nefasta, amorosa, complexa e sofisticada.

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

08 de agosto de 2015 | 02h03

Plantas e insetos se ajudam. Elas produzem flores coloridas e cheirosas que atraem os insetos. Eles se aproximam para consumir o néctar açucarado. Mas, ao consumir o néctar, os insetos se lambuzam de pólen (os espermatozoides das plantas) e, ao visitar outras flores, carregam o pólen, que fertiliza os óvulos de outras flores. A planta paga com néctar o serviço de polinização, e para aumentar a eficiência dessa troca, investe em propaganda, produzindo flores vistosas e cheirosas. Mas tudo isso é muito simples quando comparado com o que acontece na floresta de Bornéu.

A Nepenthes tem abaixo de sua flor uma estrutura que parece um jarro com tampa, formada por estruturas semelhantes às pétalas que se fecham. No interior do jarro os insetos encontram o néctar e o pólen. Mas precisam ser rápidos e cuidadosos. No fundo do jarro se acumula um líquido doce e mortal. Se o incauto inseto cair nesse líquido, a tampa se fecha e ele é digerido. É por isso que a Nepenthes é uma planta carnívora, ela digere o inseto para obter o nitrogênio escasso no solo da floresta. Transforma inseto em adubo.

Faz muitos anos, os cientistas observaram um fenômeno surpreendente. Ao cair da noite, muitas vezes a tampa da Nepenthes se abria e de dentro do jarro emergia um pequeno morcego chamado de Kerivoula hardwickii. O morcego havia passado o dia descansando no escurinho da armadilha usada pela planta para capturar insetos. No início, os cientistas acharam que o morcego estava dando uma de espertinho, tirando proveito da planta. Mas logo os cientistas perceberam que havia uma troca entre o morcego e a planta. Durante o tempo em que ficava no interior do jarro o morcego defecava, e suas fezes, ricas em nitrogênio, serviam como alimento para a planta. As fezes caíam no líquido viscoso e eram processadas junto com os insetos mortos. Descobriram que o morcego estava pagando sua hospedagem com adubo. Uma relação de ganha-ganha. Mas ficou uma questão. Como o morcego localizava seu hotel no meio da noite?

Os cientistas imaginaram que talvez a boca do jarro pudesse ser identificada no escuro pelo sistema de ecolocalização dos morcegos. Para testar essa hipótese, os cientistas levaram as flores para o laboratório e, usando um equipamento que mimetiza o sistema de ecolocalização do morcego, analisaram as propriedades acústicas da flor e do jarro. Eles enviaram pulso de som em direção à flor e captaram o eco produzido. Para surpresa dos cientistas, a tampa do jarro e sua entrada funcionam como uma concha acústica, refletindo o som de maneira a sinalizar para o morcego a localização da entrada do orifício.

Além de fazer os testes com a flor original, os cientistas fizeram pequenas cirurgias nas flores, de modo a alterar a forma da tampa e do jarro, mudando suas características de reflexão acústica. Assim, demonstraram que o sinal acústico refletido pela planta dependia da forma do jarro e da tampa.

Num último experimento, os cientistas colocaram as plantas dentro de uma grande gaiola escura na presença de morcegos. Nesse aparato os cientistas podiam saber exatamente quanto tempo os morcegos demoravam para descobrir a planta e a rota que eles usavam para se aproximar do jarro onde iam dormir. Os cientistas descobriram que, quando usavam a flor não operada, os morcegos encontravam a planta rapidamente e voavam exatamente na trajetória em que a concha acústica da planta focalizava o eco do sinal emitido pelos morcegos. Já quando os morcegos eram desafiados a encontrar as plantas modificadas pela cirurgia, a tarefa era muito mais difícil. Eles levavam mais tempo para localizar a planta e, quando se aproximavam, tinham de dar várias voltas até localizar a entrada. Ou seja, as planta operadas, onde a concha acústica da flor havia sido alterada, ficavam quase "invisíveis" para o sistema de ecolocalização que os morcegos usam no escuro.

A conclusão desse estudo é que a flor, o jarro e a tampa da Nepenthes funcionam como uma concha acústica para atrair o morcego. Assim, no escuro das florestas de Bornéu, existem plantas que anunciam constantemente "Temos vagas para morcegos, aceitamos fezes como pagamento pelo pernoite". Ainda não se sabe se esses hotéis aceitam casais.

MAIS INFORMAÇÕES: BATS ARE ACOUSTICALLY ATTRACTED TO MUTUALISTIC CARNIVOROUS PLANTS. CURR. BIOL. VOL. 25 PAG. 1911 2015

*Fernando Reinach é biólogo 

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