'Temos de evitar alguma romantização nesse movimento'

Rosana Pinheiro-Machado estuda a relação entre os jovens da periferia e os shoppings desde 2009 e acredita que a reação da Polícia Militar aos chamados "rolezinhos" e a concessão de liminares aos centros comerciais potencializaram um movimento que já existe há mais de uma década, mas que tem se transformado em um fenômeno.

Entrevista com

LAURA MAIA DE CASTRO, O Estado de S.Paulo

19 Janeiro 2014 | 02h06

Como você define o rolezinho?

Na origem, é um movimento juvenil de adolescentes de 15 a 18 anos, que há mais de uma década se reúnem em grupo para dar um rolê no shopping. É um movimento da periferia, no qual os jovens se vestem bem, se apropriam de marcas globais e de símbolos da sociedade capitalista.

Por que tanta adesão desde dezembro?

É difícil definir qual foi o "turning point", o porquê. Eu acredito que houve influência dos movimentos de junho do ano passado e desse momento da sociedade brasileira, mas não sei em que grau. O fato é que a gente está vivendo em uma sociedade que tem protestado muito mais. Dá uma nova dimensão, com as redes sociais.

Mas já tinha cunho político?

Não importa o tamanho da intencionalidade, mas o ato é sempre político, porque tem a questão do direito à cidade, o direito de ir e vir e estar bonito. Bonito, no sentido de estar nos padrões da sociedade. Mas a politização muda após a repercussão na mídia. Os jovens do Brasil estão vendo essa repercussão do preconceito e, embora eles sempre tenham sentido na pele, isso torna o movimento mais político.

A reação da PM potencializou?Potencializou muito porque faz com que as pessoas tenham noção do que está acontecendo, do tamanho e da dimensão do preconceito.

E as liminares?

Sim, porque se você proíbe e mostra um sistema de apartheid as pessoas vão reagir. Rolezinho original não era um movimento social contra o racismo, era um movimento de meninos jovens que queriam se divertir. Mas a questão do racismo está em todas as entrevistas que realizamos (em conjunto com a pesquisadora Lucia Scalco), porque esses jovens diziam "A gente vai se arrumar senão somos vistos como pretos bandidos".

O que você acha da apropriação dos rolezinhos pelos movimentos sociais?

Incrível. O rolezinho é um movimento de periferia que vem "de baixo para cima". Mas temos de evitar alguma romantização: esses jovens estavam querendo se divertir, mas tiveram esse direito barrado. Isso gerou uma revolta dos movimentos sociais e dos intelectuais. Dependendo de como a polícia reagir, vai se ampliar.

E como reage a sociedade?

Os principais comentários contra são "Por que essa bandidagem não vai trabalhar?". Se você pensa em um adolescente da elite, você vai pensar ele em um shopping, em uma festa, e não mandando capinar. É muito cruel essa ideia. Mas há muito apoio também. O rolezinho é um dos movimentos mais importante dos últimos tempos no Brasil, porque dividiu a sociedade brasileira. Ou se apoia a meninada ou odeia o rolezinho e chama de bandidagem.

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