''Tem visão mais feia?'', pergunta vizinha

Moradores mais antigos ainda lembram com nostalgia de quando o Elevado não existia; para alguns, a preocupação maior é como ficaria o trânsito

Cristiane Bonfim e Paulo Sampaio, O Estado de S.Paulo

07 de maio de 2010 | 00h00

Quando Manoel dos Santos chegou ao bairro de Santa Cecília, em 1965, a construção do Elevado Costa e Silva ainda estava no papel. "Aqui era tudo tão diferente. A vida era outra naquela época. Aqui na frente ficava a Chácara Primavera", diz, apontando para um imóvel na esquina da Avenida General Olímpio da Silveira com a Rua Doutor Gabriel dos Santos.

Nos 45 anos em que trabalha como frentista de um posto de gasolina na esquina oposta, Santos viu o bairro mudar. Os paralelepípedos das ruas foram substituídos pelo asfalto, os ônibus tomaram o lugar dos bondes, grandes casarões viraram prédios.

A maior transformação, porém, ele vê todos os dias: uma estrutura gigante de concreto erguida em cima da avenida. O Minhocão começou a ser construído em 1970 e as obras duraram apenas 11 meses. "Mas o barulho, a poluição e o abandono já duram 40 anos", lamenta Manoel dos Santos.

Para o frentista, a situação piora a cada dia. "Mas a gente se acostuma." Manoel não acredita que alguém tenha a ousadia de derrubar a estrutura, porque, para ele, isso transformaria a vida do motorista num caos. "Mas que ia ser bom, ah, isso ia. O bairro melhoraria muito e talvez as pessoas que saíram voltassem."

Vista feia. A assistente pedagógica Juliana Nunes, de 26 anos, mora em frente ao elevado há menos de um ano. "Tem visão mais feia?", pergunta. O barulho não incomoda. "Fico o dia inteiro fora. Quando chego, o Elevado está fechado, então não posso dizer que ele me incomoda", conta. "Mesmo porque cheguei aqui bem depois que ele." A escolha pelo endereço foi a mobilidade. "Gosto de andar de ônibus e aqui fica perto de tudo."

Mas ela lembra que, se um dia o Minhocão deixasse de existir, não faria nenhuma falta. "Ele é o símbolo da política que prioriza o interesse individual, das pessoas que ficam nos seus carros. Agora, é preciso investir no interesse coletivo. Com isso, a região se valoriza."

Mas para quem atravessa a cidade de carro, a possibilidade de demolição do elevado chega a causar pânico. "É uma péssima ideia para o motorista. A região vai ficar mais bonita, mas completamente parada", diz o gerente de vendas Armando Gianelli, de 58 anos, que usa diariamente o Minhocão.

Já a aposentada Yolanda Chiofilo resmunga algo como "nem!" quando lhe perguntam se sua vida vai melhorar caso a Prefeitura venha a demolir o Minhocão. "Pra mim, não faz diferença. Gosto do barulho, é sinal de que tem gente passando, movimento. Mas onde eles vão colocar esses carros todos?", pergunta Yolanda, de 75 anos.

Poluição. Só de Avenida São João, ela tem "mais de 50 anos". Casou-se na Pompéia, teve um filho e ficou viúva há 30. Antes da construção do Elevado, Yolanda avistava o ponto do bonde na Praça Marechal Deodoro e a Confeitaria Whisky, da qual era frequentadora assídua. E a poluição? Muita fuligem? "Nada. Se fumaça matasse, eu já estaria enterrada há muito tempo", brinca a aposentada.

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