Telefones e TVs do túnel do tempo

Para colecionadores, celulares e televisores de última geração não têm o charme dos que já saíram de linha. Faap traz essa evolução para museu

Ana Bizzotto, O Estadao de S.Paulo

20 Março 2010 | 00h00

Para quem troca o celular ou a TV a cada modelo que aparece no mercado pode parecer estranho guardar aparelhos que saíram de linha há dez anos ou há um século. Mas, para colecionadores desses objetos, sua preservação é uma paixão à qual dedicam tempo e estudo. A evolução das comunicações, presente nas estantes desses apaixonados, estará em exposição na mostra Tão Longe, Tão Perto - as telecomunicações e a sociedade, que será aberta amanhã no Museu de Arte Brasileira, na Fundação Armando Alvares Penteado (Faap).

O amor do comerciante Marcos Terracuso por telefones antigos surgiu aos 9 anos de idade, quando seu pai fundou uma fábrica do aparelho em São Paulo. Aos 20, ele começou a coleção e, desde os 35, dando sequência ao ofício paterno, reforma aparelhos. "A indústria do meu pai tinha um diferencial. No Brasil só eram fabricados aqueles modelos pretos, e ele fazia aparelhos em latão, pintados de diversas cores, como os importados. Era muito estiloso", relata o comerciante, de 55 anos.

Terracuso tem 25 raridades, todas restauradas por ele, como telefones de parede do fim do século 19, orelhões e aparelhos dos anos 1970. "É muito bacana ver um objeto que seria jogado fora voltar a funcionar e ganhar valor sentimental", diz ele, que cobra de R$ 100 a R$ 1 mil para restaurar. "Virou moda. O "pé de ferro", um dos mais raros, custa até R$ 7 mil."

Para o economista Alessandro Broza, de 36 anos, o objeto de adoração há 16 anos é o celular. Ele reúne 75 de vários tipos, principalmente os "tijolões", apelido dado aos primeiros modelos pelo tamanho. "Os primeiros celulares custavam US$ 2 mil, só dava para comprar em importadora. Costumava comprar no Paraguai, era mais barato", lembra. Ele preserva um carregador para três baterias e um celular com visor de LED da década de 1990. "A internet contribui muito para comprar e conhecer colecionadores, com quem troco informações e aparelhos. O gostoso é a sabedoria que se adquire", diz.

O técnico em eletrônica José Carlos Valle, de 63 anos, coleciona computadores desde 1998. Ele já reuniu mais de 15 mil itens, que fazem parte do Museu do Computador (museudocomputador.com.br), atualmente sem sede. "Fiz o museu para preservar a história. Me perguntava o que aconteceria em 10 ou 15 anos se ninguém guardasse os aparelhos. Estaria tudo no lixo." Sem apoio para reabrir o museu, Valle continua a receber doações. "A ideia está viva e não pretendo parar de colecionar."

Tevemania. Apaixonado por TV desde criança, o empresário Alceu Massini, de 51 anos, reúne 1.100 aparelhos. O acervo está em uma sobreloja de 400 metros quadrados e em dois apartamentos de 200 m² cada. "Comecei a coleção em 1982, quando arrumava um quarto na casa de meus avós e achei um televisor da década de 1950", conta Massini. "Tive um estalo: se restaurasse a TV poderia resgatar imagens da minha infância."

A partir daí, Massini passou a estudar o assunto. "Virou obsessão. Tomei alguns choques, mas consegui fazê-la funcionar." Desde então, ele passou a frequentar bazares, achou colecionadores na web e recebeu várias doações. "Nasci com o vírus do colecionismo. Antes eram os rádios, mas troquei a maioria por TVs. Ainda guardo 60 modelos mais raros."

O acervo tem a primeira TV portátil do mundo, fabricada nos EUA em 1948, um monitor da TV Tupi e uma TV de madeira de 1958. Há aparelhos futuristas e históricos, como os primeiros trazidos ao País, em 1950, por Assis Chateaubriand. O mais novo da coleção é de 1994.

Massini pôs o acervo na web (www.televisoresantigos.com.br) e aluga aparelhos para eventos. "Só falta ser descoberto pelo "Guinness Book"", brinca.

Exposição. Com curadoria do físico e professor da Unicamp Peter Schulz, a exposição Tão Longe, Tão Perto reúne cem peças da Telefônica, que retratam a história das telecomunicações e propõem reflexões sobre o futuro. A mostra fica em cartaz até 23 de maio na Faap (Rua Alagoas, 903 , Higienópolis, São Paulo).

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