Telas a óleo? Sim, mas em formato a tiracolo

Telas a óleo? Sim, mas em formato a tiracolo

Bolsas criadas pelo artista plástico Pedro Sabiá, de Jundiaí, são cobiçadas por lojas da capital e até mesmo de Portugal

Tatiana Fávaro, O Estadao de S.Paulo

29 Março 2010 | 00h00

/ CAMPINAS

O artista plástico Pedro Sabiá aproveitou uma informação de domínio público - mulher tem forte queda por bolsas - e usou-a para dar novo rumo a sua carreira: transformou suas telas a óleo no cobiçado acessório. O novo produto pode ser encontrado em sua galeria, no Shopping Serra Azul, na Rodovia dos Bandeirantes. Há nove anos dono do espaço instalado ao lado do banheiro "delas", Sabiá passou a reparar no intenso movimento da mulherada pelo local e em seus apetrechos.

Pesquisou durante nove meses o melhor material para apoiar seu projeto de fazer bolsas e encontrou o PS (poliestireno) como base para aplicação de tecidos importados ou telas. Um revestimento de resina torna as bolsas mais resistentes. Pensou num design ousado e em certa engenharia para desenvolver os fechos e fugir dos zíperes, tarraxas ou fivelas, tornando o produto exclusivo.

"Sou ansioso. Preciso criar para viver. As bolsas nasceram como alternativa para quando eu quisesse descansar dos quadros", conta o jundiaiense de 53 anos, artista desde adolescente. "Não fiz pensando em ganhar dinheiro. Queria só que pensassem: olha que cara criativo."

Versatilidade. E a criatividade de Sabiá fica nítida para quem entra na galeria e vê, além dos quadros e peças de madeira - sua origem na arte -, móveis, espelhos, carteiras, porta-joias, porta-canetas, porta-retratos, porta-níquel, vasos, revisteiros... "Aproveito sobras de material. Não consigo ficar parado."

E o que era apenas uma aposta caiu no gosto do público. Sabiá já recebeu propostas para revender as bolsas em lojas suntuosas de São Paulo, Ribeirão Preto e até mesmo Portugal. Não decidiu ainda o que fazer. "Sabe, minha cabeça não funciona assim. Eu ouço de muita gente: "Sabiá, bota a cara na janela." Mas isso é coisa para empresário. Eu não sou empresário, sou artista."

Sem se dar conta, Sabiá já está na janela. As bolsas têm características ideais para ganhar os fashionistas: originalidade, material diferenciado, design arrojado, exclusividade e a assinatura de um artista. Para passear com uma obra de Sabiá pendurada no ombro ou no antebraço, é preciso desembolsar de R$ 200 a R$ 1.500. Por enquanto.

Quando questionado sobre como determina o valor de seu trabalho, o autodidata, que cursou até a 4ª série do ensino fundamental, responde: "O que é isso?" Ao descobrir que se trata de pôr preço na sua arte, faz careta e coça a cabeça: "Xi, não sou muito bom nisso. Aquele quadro que todo mundo quer vai ser o mais caro, é por aí."

Ascensão. Do alto da simplicidade, Sabiá transita do lixo ao luxo com a mesma espontaneidade com a qual se reinventa frequentemente. "No começo, eu pegava carona para ir para Campinas, com as menores peças de madeira que eu tinha, para caber na mochila. Depois, consegui comprar um Fusca 66 e uma vaga em Embu das Artes. Devagarinho, fui crescendo. Hoje tem cliente com 40 telas minhas. Outro dia me ligou um cliente da Suíça para avaliar o valor dos quadros e colocá-los no seguro. Maluco isso."

O menino de 8 anos que pegava escondido o canivete do avô José Américo para entalhar cabos de vassoura ou madeira verde lançou-se pelas ruas do centro de Jundiaí aos 14 anos, vendendo bijuterias que fabricava. Foi hippie, estradeiro, e as caronas levaram sua arte para o interior paulista. Foi versátil, ao descobrir os pincéis e a tinta a óleo, porque precisava ocupar a cabeça, após passar por uma cirurgia em 1993 e não poder fazer esforço esculpindo madeira.

Marca registrada. E deve ser predestinado. De um pingo de tinta vermelha caído no canto de uma tela, em 1994, brincou e fez uma joaninha, em vez de blasfemar pelo erro, e descobriu a marca que o deixaria conhecido. Em todas as suas obras, lá está ela, estampada ou escondidinha. "Percebia que a criançada vinha à galeria com as mães e ficava procurando as joaninhas, então, comecei a escondê-las nas telas. Deu o maior ibope."

Talvez Sabiá não tenha se dado conta do quanto sua capacidade de observação e o respeito à própria intuição tenham feito da sua arte um "negócio". "Sabe o que é? Eu não preciso de muito. Sei viver com o suficiente." E suficiente para ele é ver a família feliz: os filhos, Talita e Pedro, e a mulher, Alaíde, parceira de todas as horas há 38 anos, desde a adolescência. "Ela já vendeu o almoço para comprar a janta comigo. Incentiva e entende meu trabalho e minha mania de criar 24 horas por dia."

À VENDA

R$ 1.500

Tela a óleo reveste placa de plástico PS dobrada de forma ovalada na base. Divisórias e revestimento são de algodão. O fecho é imperceptível

R$ 450

Foi apelidada pelo artista de "Galinha d"Angola", por causa da estampa do tecido. Tem alça e detalhes de madeira e corda de algodão 100%

R$ 350

Uma das primeiras peças de Sabiá, é feita de madeira. É revestida por 3 tipos de

tecido importado. Fecho com imã

R$ 650

Peça curinga, pela cor neutra. Alça de madeira e corda de algodão. Revestimento de tecido importado. Fecho imperceptível

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