Teatro para cachorro

Elenco de musical sobre cães tem de cantar alto para superar a plateia, em sessão especial feita para quem quisesse trazer os bichos de estimação

Paulo Sampaio, O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2010 | 00h00

Ao fim do espetáculo Bark! Um Latido Musical, a empresária Meggy Figer empurra um carrinho-berço com Baby Figer dentro. "Tenho duas filhas. Uma é gente, a outra é cachorra", diz Meggy, que é loira de olhos azuis, veste um casaco de pele de ovelha e carrega duas Louis Vuitton.

Personagem da vida real, não do espetáculo, Meggy roubou a cena na sessão promovida anteontem especialmente para quem quisesse levar o cachorro. Embora a ideia tenha atraído público, o elenco paramentado com perucas e roupas coloridas teve de cantar alto para superar a ruidosa matilha.

Baby Figer, uma shitzu de 4 anos, vestia roupa xadrez Barberry ("Barbie+Burberry"). Apesar da presença maciça de lulus, o intuito da sessão no Teatro Nair Bello era "chamar a atenção para a causa dos cachorros abandonados" e arrecadar fundos para a ONG Natureza em Forma.

A maior parte dos vira-latas foi acomodada na fila do gargarejo. Lá pra cima, megafelpudos de raças como lulu da Pomerânia, lhasa apsu e poodle aguardavam o começo do espetáculo nos colos das donas. Nilda, a faxineira do teatro, diz que não precisou limpar nada além de um "xixizinho aqui, outro ali".

Os seis atores afirmam que os latidos vindos da plateia não atrapalharam a concentração. "A gente está acostumado com criança. Dependendo da turma, elas latem mais alto que os cachorros", diverte-se Pati Amoroso, que faz uma poodle. No musical, dirigido por José Possi Neto, um grupo de seis cachorros que moram na mesma vizinhança conversa sobre os seres humanos sob o seu ponto de vista. Até a primeira cena, logo depois que os alto-falantes emitem o latido de um cachorro grande, os da plateia permanecem atentos.

Kid Valente, um spitz de 2 anos, está tão quieto que parece um bicho de pelúcia gigante no colo de Jana de Palma, uma modelo de 27 anos e pesados cabelos castanhos aloirados, olhos verdes-faiscantes, sorriso tipo colar de pérolas. "Hoje eu tento me afastar de qualquer tipo de preconceito", diz Jana, sobre o fato de a raça spitz (vulgo lulu da Pomerânia) estar associada a um ramo esnobe da nobreza canina. "Mas eu reconheço que tem isso, sim."

Patinha. Ocorre que Kid Valente é um cachorro "especial" (como todos, na avaliação dos próprios donos): "O Kid quebra paradigmas. Ele se joga na lama, se suja e, quando eu exagero no carinho, ele me empurra com a patinha." Hmmm, esse Kid nem parece tão valente assim.

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