Tatu subiu no pau

Guerra é guerra. Fazia uma semana que a Revolução de 1924 começara, uma insurgência de jovens oficiais do Exército, aliados a oficiais da Força Pública de São Paulo. O plano de um deslocamento ferroviário rápido, já no dia 5 de julho, um sábado, em direção ao Rio de Janeiro, para tomar a capital federal e depor o presidente da República, Artur Bernardes, não dera certo. Tropas legalistas do Exército e da Marinha foram mais rápidas, chegaram a São Paulo em poucas horas e ergueram uma barreira que confinou os revoltosos no interior da cidade. Eles a abandonariam de trem no dia 28, para o interior e o sul, única saída que ficara aberta. Era o começo do fim da República Velha. Com a Revolução de Outubro de 1930, de que participariam os tenentes da revolta de São Paulo, começaria no Brasil uma nova era política.

José de Souza Martins, O Estado de S.Paulo

07 de maio de 2012 | 03h04

Os revoltosos, sob o comando do tenente João Cabanas, da Força Pública de São Paulo, estavam havia dois dias imobilizados na fábrica Maria Zélia, no Belenzinho, com uma metralhadora na torre, mirando, sobretudo o Instituto Disciplinar, mais tarde Febem. Havia o risco de que ali se entrincheirassem os legalistas, vindos pela várzea do Tietê. Os revoltosos de Cabanas haviam descido da Avenida Celso Garcia, pela Rua da Intendência, uma rua residencial, hoje bloqueada pelos portões de uma fábrica Matarazzo desativada, e ocupado a fábrica têxtil de Jorge Street, que mais tarde seria prisão política. A Vila Maria Zélia ainda lá se encontra, testemunho das ideias sociais do industrial e médico e dos acontecimentos históricos que ali tiveram lugar.

Cabanas ganhara notoriedade, logo nos primeiros dias da Revolução, ao mandar fuzilar, no centro de São Paulo, na vigência da lei marcial, dois saqueadores dos muitos que invadiam para roubar, bancos, lojas e casas abandonadas pelos moradores que fugiram para o interior ou para o campo de refugiados da Cruz Vermelha na zona leste. Nas ruas, Cabanas era logo reconhecido, queriam conversar com ele. Tornou-se popular. Sua primeira missão fora a de ocupar a Estação da Luz.

Combateu nas ruas a seu modo. Na noite fria de 12 de julho, para animar a tropa e intimidar os inimigos, deles debochando, na Maria Zélia, usou uma arma insólita. Lá no meio da escuridão, mandou que seus soldados cantassem a marchinha Tatu Subiu no Pau, de Eduardo Souto, sucesso do Carnaval de 1923: "Tatu subiu no pau, é mentira de mecê; lagarto ou lagartixa isso sim é que pode sê". Ou, então, a polca-chula, de 1906, de Armides de Oliveira, Vem Cá, Mulata: "Vem cá, mulata. Não vou lá, não. (...) O povo gosta da nossa dança e de nos ver nunca se cansa..." Na terceira noite, uma bala atravessou o antebraço esquerdo de Cabanas, que foi recolhido ao Hospital do Brás por algumas horas. Pouco depois comandava a retirada de sua tropa.

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