TARTARUGAS DE RIO 'CONVERSAM' ATÉ NO OVO

Vários tipos de vocalizações gravadas porpesquisadores indicam que espécie se comunica

FÁBIO DE CASTRO, O Estado de S.Paulo

20 Agosto 2014 | 02h02

As tartarugas de rio (Podocnemis expansa) usam vários tipos de comunicação vocal para coordenar comportamentos sociais, revela pesquisa feita no Pará e publicada na revista Herpetologica. A "conversa" entre os animais pode ser estratégia usada, por exemplo, na sincronização de movimentos durante as migrações, ou na decisão sobre locais para a desova, conforme cientistas do Instituto Nacional de Pesquisas de Amazônia (Inpa) e da Wildlife Conservation Society (WCS).

Segundo uma das autoras do artigo, Camila Ferrara, da WCS, as vocalizações foram gravadas com microfones e hidrofones instalados nos cascos dos animais. O estudo se baseou em 220 horas de gravações entre 2009 e 2011, durante o período reprodutivo, que começa com a migração das tartarugas e termina com o nascimento dos filhotes, a saída dos ninhos, o reencontro com as mães e a migração de volta à floresta alagada.

"Observamos seis tipos de sons nesse período. Os dados indicam que as vocalizações têm papel importante na sincronização das atividades dos grupos", disse Camila. A variedade de sons surpreendeu os cientistas. "Foram registrados desde sons simples, como pulsos, até outros mais complexos, como os harmônicos e híbridos." As "conversas" só podem ser ouvidas por quem estiver perto dos animais, em silêncio, segundo outro autor do estudo, Richard Vogt, do Inpa. "Os sons são muito baixos, embora audíveis para a frequência humana."

Frequências. Segundo o artigo, os sons feitos pelas tartarugas durante a migração tinham as frequências mais baixas, talvez para facilitar o contato entre os animais em longas distâncias. As vocalizações no período em que são feitos os ninhos tendem a ter frequências mais altas, o que facilita sua transmissão em águas rasas e no ar.

Em outro estudo do gênero publicado no início de 2013 no Journal of Comparative Psychology, pesquisadores revelaram pela primeira vez caso de cuidado parental entre répteis. Antes disso, pensava-se que as tartarugas não cuidavam das crias. Mas, ao estudar os sons, os pesquisadores perceberam que os filhotes, ao sair dos ninhos e entrar no rio, chamam pelas fêmeas. "Elas respondem e os aguardam em frente à praia para então irem todos juntos ao rio", diz Vogt.

Os cientistas também observaram que, até dois dias antes da eclosão dos ovos, os filhotes emitiam sons vocais. "Era curioso observar que muitos dos filhotes nasciam prematuros. Agora acreditamos que isso ocorre porque são estimulados pelos outros com a vocalização, a fim de unir forças para cavar e sair do ninho", diz. Os cientistas observaram ainda que os filhotes permanecem juntos com as fêmeas adultas durante toda a migração, por mais de dois meses.

Participaram também do estudo Renata Sousa-Lima, da Universidade Cornell, Bruno Tardio, do Instituto Chico Mendes, e Virginia Campos Diniz Bernardes, do Inpa.

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