Tapuiassauro

Enquanto a gente tá por aí, enrolado com planilhas Excel e contas a pagar, pensando na morte da bezerra ou se hoje à noite, quem sabe, enquanto assiste à novela, vai cortar as unhas dos pés, coisas incríveis acontecem pelo mundo. Numa cidadezinha chamada Coração de Jesus, por exemplo, no norte de Minas Gerais, tem um pessoal desenterrando dinossauros.

Antonio Prata, O Estado de S.Paulo

20 Setembro 2010 | 00h00

A história saiu no caderno especial Dinossauros do Brasil, aqui no Estadão, semana passada, e foi contada magistralmente por Herton Escobar. Começou em 2005, lá em Coração, quando um sujeito chamado Zezinho topou com um pedaço de osso, saindo do chão. Curioso, levou-o para casa. Dias depois, um oficial de justiça bateu à porta, para entregar um documento. Em qualquer parte do planeta, quando um oficial de justiça aparece, o dono da casa se mete embaixo da cama, apaga a luz do quarto, manda a esposa dizer que ele foi pra Papua-Nova Guiné e só volta em maio, se voltar. Mas Coração de Jesus é norte de Minas, quase Bahia, de forma que Zezinho fez o sujeito entrar, deve ter oferecido um café, um pão de queijo, uma cachaça quem sabe e, papo vai, papo vem, os dois terminaram debruçados sobre o osso. O oficial, tão interessado quanto seu conterrâneo, resolveu ir além de suas obrigações para com o Judiciário e dar uma mão à paleontologia nacional. Foi à casa de um ilustre jesuíno, Ubirajara Alves Macedo: "a enciclopédia viva da cidade. Se alguém pudesse descobrir de onde vinha aquele osso, era ele". Bira não sabia nada sobre o assunto, mas, como uma das principais virtudes do sábio é reconhecer sua ignorância, resolveu pedir ajuda aos universitários: ligou para todas as instituições de ensino superior que conhecia. Os doutores, provavelmente enrolados com planilhas Excel e contas a pagar, pensando na morte da bezerra ou se aquela noite, quem sabe, enquanto lessem os clássicos, cortariam as unhas dos pés, ignoraram as chamadas.

Não desacreditemos toda a academia, no entanto, por conta de tamanho desinteresse. Foi um biólogo, Márcio Nobre, filho de um amigo do Bira, quem trouxe a solução. A solução atendia pela alcunha de Wolverine, um geólogo de chapéu a la Indiana Jones, duas costeletas largas e membro da comunidade "Eu tenho uma Rural Willys", no Orkut, da qual Nobre também faz parte. "Atenção Galera das Trilhas" - diz o texto na página da comunidade - "se vc tem um jipe original, transformado, equipado para fazer tudo, esse é o seu lugar. E não se esqueça, se vc conhece novas trilhas, deixe seu recado. Um Abraço Trilheiros do Cerrado!!!!!!" Nobre, o biólogo de Coração de Jesus, tinha mais do que uma trilha para informar. Contatou Wolverine e falou do osso. Wolverine, cujo nome civil é Ricardo Domingues e trabalha com paleontologia no Museu de Zoologia da USP, contou a história a Hussam Zahler, curador de herpetologia (estudo dos répteis) do museu, e eles foram pro norte de Minas, ver o que é que estava acontecendo. Dois anos depois desenterrariam, ali, o crânio de titanossauro mais bem conservado que já foi encontrado sobre (ou melhor, sob) a face da Terra: a cachola de um bicho que, há 120 milhões de anos, media 4 metros de altura e 13 de comprimento.

Neste ponto do texto, o leitor desavisado deve pensar, assim como eu, até semana passada: finalmente encontraram um dinossauro no Brasil! A pobreza diminuiu, a classe C cresceu, tem TV de LCD até no quebra-sol dos táxis, já era hora de termos dinossauros, como os países de Primeiro Mundo! Mas o que o caderno especial do Estadão mostrou é que o Tapuiassauro (apelido dado ao titanossauro mineiro, enquanto aguarda seu batismo científico) não é a primeira nem a segunda espécie encontrada no País, é a décima sétima. Temos o Santanaraptor placidus e o Angaturama limai, do Ceará, o Uberabatitan ribeiroi e o Adamantisaurus mezzalirai, mineiros, o Saturnalia tupiniquim, gaúcho, o Antarctosaurus bresiliensis, paulista, entre outros, de nomes tão exóticos quanto suas figuras. Não só temos muitos fósseis, mas em alguns casos, possuímos os melhores: da Chapada do Araripe, fronteira do Ceará, Piauí e Pernambuco, saíram os mais bem preservados pterossauros do mundo - aqueles répteis voadores, inspiração para as montarias aladas dos Naavi, em Avatar.

O grande problema é que existem pouquíssimos profissionais para estudar o assunto. Em todo Brasil, há cerca de 40 paleontólogos. É 17 vezes menos gente que os membros da comunidade "Eu tenho uma Rural Willys", do Orkut: 695. Por enquanto, ainda dependemos do empenho de pessoas como o Zezinho e o Bira, o oficial de justiça e Wolverine, o Professor Hussam e outros gatos pingados que, com seu esforço e curiosidade, ajudam a reconstruir o mundo tal qual era há 100 milhões de anos, quando não havia planilhas Excel nem contas a pagar, novelas a seguir ou unhas a cortar, mas répteis do tamanho de ônibus ou helicópteros, andando, voando, nascendo e morrendo por aí.

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