Tapeçaria queimada de Tomie Ohtake renasce

Três anos e meio após incêndio, obra única está em produção no Memorial da América Latina

Edison Veiga, O Estado de S.Paulo

28 Maio 2017 | 03h00

SÃO PAULO - Quando um incêndio de grandes proporções tomou conta do Auditório Simon Bolívar, no Memorial da América Latina, em novembro de 2013, a própria artista plástica Tomie Ohtake (1913-2015) tratou logo de tranquilizar a todos: sua imensa tapeçaria, de 800 metros quadrados, poderia ser refeita, bastava seguir o projeto.

Na quinta-feira, a reportagem do Estado foi a primeira equipe a conferir como estão os trabalhos de um time de 20 tecelões, funcionários da empresa familiar Punto e Filo, em Perus, extremo norte de São Paulo. Munidos de uma máquina de costura e muitas agulhas, eles refazem, cuidadosamente, cada centímetro da gigante tapeçaria. 

Ao contrário da peça original, que consistia de 400 pequenos tapetes “emendados”, a nova versão será uma peça única – que, quando pronta, deve pesar quase 1 tonelada e tem tudo para ser homologada pelo Guinness World Records como a maior tapeçaria contínua já feita no mundo. 

Viabilizar esta obra não foi tarefa simples. Desde 2014, o diretor administrativo do Memorial, Felipe Pinheiro, estava sondando empresas do ramo. Com sede em Americana, a que fez o painel original não apresenta, hoje, condições técnicas para tal. Outras foram prospectadas. No fim de 2015, quando esta foi encontrada, surgiu um novo desafio. “Queríamos fazer uma parceria, já que não havia orçamento para tal execução”, comenta o presidente do Memorial, Irineu Ferraz.

A Punto e Filo doou a mão de obra de seus funcionários. E a marca americana Antron providenciou o material. Não é pouco. Se fosse paga, a tapeçaria custaria R$ 1,84 milhão. “Como habitué que era do auditório, meus olhos brilharam com a chance de estar envolvido nesta ‘refação’ histórica”, diz o proprietário da empresa, Marinho Pisaneschi. “Eu admirava muito esta tapeçaria, pela grandiosidade, por Tomie Ohtake e por Oscar Niemeyer (todo o complexo do Memorial saiu das pranchetas do famoso arquiteto, que morreu em 2012, aos 104 anos).”

A decisão de fazer a tapeçaria em uma peça única, a despeito das dificuldades logísticas, deve valer a pena, acredita o proprietário. “A obra de arte vai ficar com melhor definição. E os ponteamentos manuais de nossos tecelões vão valorizar as curvas do desenho”, explica. A tapeçaria original havia sido feito de forma 100% mecanizada. 

Foram meses de tratativas com o Instituto Tomie Ohtake até aprovar cada detalhe. Amostras com as seis cores foram e voltaram quatro vezes, até chegarem às tonalidades ideais. “Eles quiseram caprichar”, elogia o arquiteto Ricardo Ohtake, filho de Tomie e presidente do instituto. 

Tanto ele como outros representantes da família têm acompanhado de perto cada passo. “Quando abrimos a peça toda para ver como está ficando, é uma energia muito especial. Trabalhar nisto é um presente para a gente”, diz o funcionário Adilson Gonçalves Souza. 

O serviço começou a ser feito em janeiro. Para sistematizar as tarefas, o desenho todo foi dividido em 21 seções. Atualmente, eles estão na quarta parte. O cronograma é rígido: tudo tem de ser entregue ao Memorial até 1.º de outubro – será uma megaoperação, já que a tapeçaria, enrolada, vai ter 14 metros de comprimento e 1,5 metro de diâmetro.

Então virá a instalação. Pinheiro já está prospectando empresas que possam executar o serviço. A nova tapeçaria é feita com fios antichamas. E, ao contrário da peça original, não será fixada em um fundo de madeira, mas sim em um reforçado drywall de gesso, também antichamas. 

Tudo precisa estar tinindo para o dia 15 de dezembro, às 19h30, quando o auditório será reaberto ao público. Ainda não há detalhes da programação, mas o Memorial quer “uma boa orquestra”, nas palavras do presidente Ferraz. 

Obras. Quase 63% das obras de recuperação do auditório estão concluídas. O governo do Estado investiu R$ 29 milhões no processo. Amanhã, um protótipo da poltrona feita pela empresa que venceu a licitação será submetido ao crivo de especialistas. Para ser aprovado, precisa de 27 laudos – acústica, madeira, tecido, etc. Então, a contratada terá cem dias para executar o trabalho.

Uma dúvida ainda resta na cabeça de Ricardo Ohtake. Na peça original, a assinatura da artista era “Tomie 89”, em referência ao ano de criação da obra. Não está definido se a nova tapeçaria repetirá a data original ou se terá o ano de 2017. “Talvez, ambos. O 89 e a indicação de que foi refeita em 2017”, diz Ohtake.

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