FELIPE RAU/ESTADÃO
FELIPE RAU/ESTADÃO

Sushiman relatou bullying de colegas, diz policial militar

Leandro Santana dos Santos manteve colegas reféns em restaurante no Itaim Bibi e foi morto pela PM durante a ocorrência. Estabelecimento disse que situação 'jamais foi identificada'

Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

22 Novembro 2018 | 23h54

SÃO PAULO - Antes de morrer com dois tiros, o sushiman Leandro Santana dos Santos, de 26 anos, mantinha cinco colegas reféns na cozinha do Jam, restaurante japonês no Itaim Bibi, zona oeste de São Paulo. “Se tentar sair, vai morrer”, repetia, em aparente surto psicótico. Tinha uma faca em cada mão. Para libertar as vítimas, policiais militares tentavam acalmar o rapaz. Durante a conversa, ele dizia que sofria bullying no trabalho.

O possível motivo para o transtorno de Santos foi informado ao Estado pelo 2.º tenente da PM Felipe Duzzi, do 23.º Batalhão, que atendeu a ocorrência e atirou contra o sushiman. “Ele dizia que estava sendo humilhado pelos funcionários. Sofrendo bullying, zoação mesmo. Dizia que estavam ferindo a honra e a imagem dele.”

Segundo relata, houve mais de uma hora de negociação. O sushiman aparentava ter usado droga, diz o PM. A equipe também usou bala de borracha e taser (arma de choque) para tentar contê-lo, sem sucesso. O agressor teria, ainda, atirado uma faca contra os policiais. Segundo as investigações, Santos foi baleado nas nádegas e na lateral do corpo. Foi socorrido ao Hospital das Clínicas, onde morreu.

O 15.º Distrito Policial (Itaim Bibi) instaurou inquérito para apurar se houve excesso na ação dos PMs. “Em princípio, tudo ocorreu dentro da legalidade”, diz o delegado titular Fábio Pinheiro Lopes, que aguarda as imagens das câmeras para comparar com o relato dos agentes.

Não havia informação se Santos usava remédio ou droga. Na delegacia, funcionários do Jam disseram que ele trabalhava lá havia sete anos, era “pacato” e “muito fechado”. Do sertão de Alagoas, não tinha antecedentes e, em pesquisas da polícia, só aparece como vítima em duas ocorrências – de furto e de acidente de trânsito. Os colegas também negaram conflitos.

Surto

Eram 23h08. Um cozinheiro encerrava o expediente, quando, de surpresa, Santos lhe aplicou uma “gravata” e pôs uma faca no seu pescoço. “Sai da frente!”, dizia, abrindo caminho com a vítima até o salão, onde havia entre 30 e 40 clientes, segundo testemunha.

Um gerente pedia calma e outros dois funcionários tentaram segurar o sushiman pelas costas. Nessa hora, Santos soltou o colega, que sofreu um corte no queixo, e caiu no balcão. Lá, pegou a segunda faca. Houve correria para sair do restaurante. Cinco funcionários, porém, foram rendidos. 

Em meio ao tumulto, a PM recebeu nove chamados para a ocorrência. Ao chegar, a equipe negociou a saída dos reféns. “Leandro, deixa o pessoal: você trabalhador, honesto, tem filho”, disse Druzzi. Todos foram soltos. Em seguida, o sushiman teria sofrido outro surto e passado a ameaçar os policiais.

Após correr para o 1.º andar, Santos teria jogado uma faca em Druzzi que, ao lado de um parceiro, já havia tentado usar a arma de choque. Mas o equipamento bateu no avental do cozinheiro. Também foram feitos seis disparos de bala de borracha. “Não tinha mais munição de borracha, aí usei minha arma letal”, diz o PM, que argumenta ter feito “uso progressivo da força”. “Estava em risco e os meus policiais estavam em risco.”

Em nota, o Jam lamenta a morte e diz ser solidário com a família e colegas. Também nega que o sushiman era alvo dos colegas. “Repudiamos qualquer prática de bullying que jamais foi identificada ou mesmo relatada durante todos esses anos.”

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