Felipe Resk/Estadão
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Sushiman foi morto com 4 tiros nas costas, aponta laudo

Polícia investiga se houve excesso dos agentes em abordagem no Itaim-Bibi; PMs envolvidos foram afastados de atividades na rua

Felipe Resk, O Estado de S. Paulo

27 de novembro de 2018 | 22h48

O sushiman Leandro Santana dos Santos, de 26 anos, morto por policiais militares após ameaçar colegas de trabalho e mantê-los reféns em um restaurante no Itaim-Bibi, zona oeste de São Paulo, foi vítima de quatro tiros pelas costas, segundo aponta laudo necroscópico. A Polícia Civil investiga se houve excesso dos agentes.

Para a viúva Emilene Pereira Gonçalves, de 41 anos, houve “negligência” dos PMs que atenderam a ocorrência. “Eu quero saber por que a polícia fez isso”, afirma a dona de casa, que prestou depoimento no 15.º Distrito Policial (Itaim Bibi) nesta terça-feira, 27. “O que fizeram com ele... Tantos tiros... Para quê tudo isso?”

Segundo investigações, Santos teve um “surto psicótico”, aplicou uma gravata em outro funcionário e pôs uma faca em seu pescoço.  A vítima recebeu ajuda e conseguiu se livrar, mas sofreu um corte no queixo. O caso aconteceu na noite de quarta-feira, 21, no Jam, restaurante japonês. Eram 23h10 e havia entre 30 e 40 pessoas no local, de acordo com testemunhas.

Em seguida, o sushiman pegou outra faca e acuou cinco colegas, que ficaram rendidos na cozinha. Os reféns só foram liberados após a chegada a Polícia Militar. Quando estava só com os agentes, o sushiman subiu para o mezanino e atirou uma faca contra a guarnição. Os PMs usaram bala de borracha e arma de choque, sem sucesso, e também atiraram com a pistola .40. Socorrido, Santos morreu no Hospital das Clínicas.

Emilene nega que o marido tenha sofrido um surto e diz que Santos não usava remédio controlado ou droga. “(Surto) não existe”, afirma. “Ele era uma pessoa sossegada, tranquila. Até agora não entendo o que aconteceu com ele.”

Ao Estado, um dos PMs que participou da ocorrência disse que Santos relatou ser alvo de bullying pelos colegas - o que o restaurante nega. “Para mim, ele não contou nada sobre o que estava acontecendo”, diz Emilene, que suspeita que o marido tenha reagido a alguma “brincadeira” de outros funcionários. “Ele gostava de trabalhar, nunca levou problema para casa”, afirma. “Só queria cuidar da filha e de mim. Da família. Deixaram a gente arrasada com tudo isso. Eu quero Justiça.”

Natural de Palmeira dos Índios, no sertão de Alagoas, Santos chegou a São Paulo ainda bebê, com 8 meses: a mesma idade da filha Isabella, que teve com Emilene. O casal estava junto há cerca de cinco anos, segundo a viúva. “Só tristeza... Está difícil. Eu vou ficar esperando por ele, que sempre chegava de madrugada. A bebê também está sentindo falta do pai que chegava beijando, dava tanto carinho para ela.”

Investigação

O laudo aponta que Santos foi baleado no braço esquerdo, na perna direita, na nádega e próximo à coluna. “Os quatro ferimentos tiveram entrada pelas costas e não tiveram saída. Só o da perna saiu pela frente”, diz o delegado Fábio Pinheiro Lopes, titular do 15.º DP, responsável por investigar o caso. A Polícia Civil também analisou imagens de câmeras de segurança do restaurante para confrontar com o relato dos PMs.

Para Lopes, no entanto, não é possível afirmar, neste momento, que houve excesso dos policiais.  “A gente vai esperar chegar o laudo do IC (Instituto de Criminalística) da dinâmica de local e também vai pedir para o DHPP (Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa), que tem um laudo que fraciona quadro a quadro (a filmagem) para a gente ter um convencimento melhor”, afirma.

Os PMs envolvidos na ocorrência foram afastados das atividades de rua. O caso também é acompanhado pela Corregedoria da Polícia Militar e pela Ouvidoria das Polícias de São Paulo.

Para o ouvidor Benedito Mariano, houve uso inadequado de armas letais e não-letais, além do equipamento de proteção. Os PMs dispunham de escudo, mas não teriam usado. “Eles demonstraram despreparo e negligenciaram todos os procedimentos padrões para ocorrências em que o agressor está com arma branca e não há mais reféns”, afirma.

Segundo Mariano, entre oito e dez PMs participaram do caso. “As imagens mostram que a vítima estava visivelmente acuada, atrás de um balcão do mezanino, sem refém e sem acarretar risco à integridade física dos policiais”, diz. “Pelas imagens, não havia necessidade de utilizar arma de fogo.” 

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