Superintendente da PF diz que 'inimigo interno' é minoria na corporação

Delegado afirma que agentes como os que foram presos em ação na 25 de Março tem 'poder limitado'

Fausto Macedo, O Estado de S.Paulo

02 de agosto de 2011 | 19h34

SÃO PAULO - A Polícia Federal bateu de frente com o "inimigo interno" - agentes da própria corporação envolvidos em suposto esquema de corrupção e proteção ao império do contrabando na mais popular rua comercial de São Paulo, a 25 de Março, território livre de chineses e coreanos que fazem da pirataria seu negócio pujante. "O inimigo interno é aquele que conhece os procedimentos e a investigação dessa natureza é sempre mais difícil que as demais", declarou Roberto Troncon, delegado superintendente regional da PF no Estado, ao anunciar nesta terça-feira, 2, os resultados da Operação Insistência. Apesar disso, ele considera os agentes como minoria.

 

Quatro foram presos em caráter preventivo, informou Troncon. Destes, dois são agentes federais experientes, um é motorista da instituição - todos já foram submetidos a procedimentos disciplinares por outras infrações. O último agia como intermediário de policiais e empresários estabelecidos no centro e também no Brás. A missão foi conduzida em parceria pela Diretoria de Inteligência e pela Corregedoria Geral da PF.

 

O delegado está convencido de que o núcleo de policiais à margem da lei "constitui minoria absoluta, com uma ação limitada". "(Policiais) podem vender ilusão (para empresários do contrabando), mas jamais vão entregar o produto porque não há como parar a Polícia Federal."

 

O delegado citou a Operação Pomar, deflagrada em junho contra comerciantes do Pari, Brás e 25 de Março que subfaturavam importação de tecidos. "Os que exploram o contrabando sempre têm objetivo de cooptar servidores públicos, essa pressão é permanente. O que a PF espera sempre é que as ações contra desvios desestimulem essa minoria (de servidores)."

 

Troncon observa que "o Brasil tem uma política de fomentar seu comércio internacional, em busca de uma economia forte e oferta de mais empregos". Nesse ritmo, anotou, "São Paulo torna-se um destino natural de mercadorias ilícitas". 

 

Presos. O grupo sob suspeita conta pelo menos 19 integrantes, dos quais 7 são servidores federais em atividade e um aposentado. A eles é imputado o crime de vazamento de informação confidencial - violação de interceptações telefônicas. Um delegado foi conduzido coercitivamente à sede da PF para depor.

 

A operação se estendeu, ainda, a um escritório de advocacia, na presença da Comissão de Prerrogativas da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Cerca de 10 empresários pagavam pela proteção.

 

A Justiça Federal expediu 22 mandados de busca e apreensão em endereços comerciais e residenciais. Foram recolhidos R$ 40 mil, dinheiro que seria entregue a um acusado.

 

A investigação foi desencadeada em julho de 2009, a partir da denúncia de um comerciante que não aceitou pagar propinas. A PF apurou que os agentes "faziam ajustes prévios" com empresários e recebiam pagamentos mensais para fazer vista grossa ao combate a produtos ilícitos.

 

A uma ala dos federais cabia também avisar o submundo do descaminho sobre operações secretas da PF. Eles foram enquadrados em corrupção ativa e passiva, concussão e facilitação ao contrabando.

 

"A Polícia Federal reafirma sua política de tolerância zero com desvios de conduta funcional", alertou Troncon. "Da mesma forma que agimos com rigor e firmeza contra a corrupção de qualquer agente público também o fazemos com relação a servidores da PF."

 

Insistência foi idealizada a partir da constatação de que servidores, "mesmo com a contínua política de intolerância da PF a todo e qualquer desvio de conduta funcional, insistiam na prática de atividades ilícitas."

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