'Superespecialistas' não criam vínculo com os pacientes

ANÁLISE: Nulvio Lermen Junior

É PRESIDENTE DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE, MEDICINA DE FAMÍLIA, COMUNIDADE (SBMFC), O Estado de S.Paulo

08 de setembro de 2013 | 02h04

A formação médica no Brasil adotou o sistema americano do início do século passado, em que o foco era a atuação em hospitais e a busca pela superespecialização. Modelo que não valoriza a relação médico-paciente ao longo do tempo, tendo em vista que cada profissional cuida de um diferente órgão do corpo ou de uma certa faixa etária. Hoje, essa fórmula está ultrapassada, pois não prepara os profissionais para enfrentar as necessidades da população, que pode - e deve - ser tratada fora dos hospitais.

Nos últimos 50 anos, porém, muitos países revisaram seus modelos, priorizando centros de atenção primária. Além disso, estabeleceram, como condição para o exercício da medicina, a realização de uma residência em medicina de família e comunidade. Ao menos 40% das vagas passaram a ser destinadas a essa área. Por paradoxo que possa parecer, a atuação generalista demanda um treinamento específico, que aborda ainda questões comunitárias.

Em países com sistemas de saúde bem estruturados, como Reino Unido, Canadá e Espanha, a medicina de família é a principal especialidade. Mesmo os Estados Unidos vêm investindo há muito tempo na formação de médicos de família, e hoje essa é a segunda maior especialidade por lá, reunindo mais de 210 mil profissionais.

O que todos esses países já descobriram há décadas, e que o Brasil parece estar descobrindo aos poucos, é que é necessário investir na formação de generalistas. Sistemas de saúde com forte base na atenção primária são mais eficientes, geram menos custos e promovem melhores resultados.

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