Suicídio em homens: como desmontar a armadilha emocional?

A morte recente do ator americano Robin Williams, de 63 anos, e do comediante brasileiro Fausto Fanti, de 35, do grupo de humor Hermes & Renato, traz novamente à tona a discussão sobre o suicídio, uma das principais causas de morte de homens nos dias de hoje. Os casos também mostram a importância de se pensar em formas de identificar riscos e planejar estratégias de prevenção.

JAIRO BOUER, O Estado de S.Paulo

17 Agosto 2014 | 02h03

O relatório deste ano do Escritório Nacional de Estatística do Reino Unido, divulgado em fevereiro, mostra que o suicídio é a primeira causa de morte em homens de 20 a 50 anos e a segunda principal dos garotos adolescentes britânicos. Em especial, na faixa etária dos 20 aos 34 anos, uma em cada quatro mortes de homens acontece por suicídio. A taxa de suicídio é hoje três vezes mais alta entre os homens do que entre as mulheres, no Reino Unido e em boa parte do mundo ocidental.

Na última semana, a mulher do ator americano revelou que ele enfrentava as fases iniciais de um diagnóstico de mal de Parkinson, além de lutar há décadas contra um quadro de dependência de álcool e drogas e de enfrentar transtornos de ansiedade e depressão.

Os transtornos emocionais e psiquiátricos como depressão, ansiedade, quadros psicóticos e uso nocivo de álcool e drogas estão entre as principais causas de suicídio. A depressão, em especial, é considerada o principal fator de risco. Identificar e tratar precocemente os quadros depressivos, contando com o suporte profissional e familiar, são um dos pontos centrais nas estratégias de prevenção ao suicídio. O desafio é identificar quadros depressivos em pessoas que, muitas vezes, sofrem caladas por anos a fio.

Doenças crônicas e incapacitantes também podem ser desencadeantes importantes do suicídio. O Parkinson, por exemplo, segunda doença degenerativa neurológica mais comum (depois do Alzheimer), tem uma relação estreita com quadros depressivos. Os especialistas não sabem, com certeza, se existe um determinante biológico comum (como um desequilíbrio dos neurotransmissores), ou se a reação emocional ao diagnóstico e a progressão da doença levariam à depressão.

Na esfera das reações aos eventos da vida, especula-se que algumas questões podem pesar mais para os homens do que para as mulheres. No universo feminino, guiado por prioridades como enfrentar qualquer sorte de desafio para criar filhos e garantir a continuidade da família, problemas decorrentes de uma separação, do luto ou da perda de emprego, talvez, sejam melhor trabalhados.

Em uma sociedade machista, que cobra do homem força, poder, sustento da família, lidar com eventuais fragilidades pode ser um obstáculo intransponível. O homem, isolado e envergonhado por não conseguir resolver suas dificuldades por conta própria, torna-se refém de uma armadilha emocional complicada de ser desmontada.

A questão da orientação sexual também pode pesar. Homens que têm conflitos com sua sexualidade, dificuldade em expor seus relacionamentos e parcerias, vergonha ou medo da reação da família e da sociedade, também podem estar em situação mais vulnerável ao suicídio. Essa situação pode ser ainda mais dramática entre os mais jovens.

Ao se pensar em estratégias de prevenção de risco de suicídio no universo masculino, muitas vezes, a família, os amigos e o médico teriam de agir de forma muito mais proativa, quebrando resistências e mostrando o caminho do tratamento e do suporte.

Mudanças de comportamento, isolamento, alterações súbitas de projetos e trajetórias pessoais, principalmente depois de um evento complicado na vida, precisam ser monitorados por quem está próximo. Talvez, só assim, a gente consiga evitar que tantos homens e mulheres tirem tão cedo sua vida.

É PSIQUIATRA

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