Suíça deporta brasileiro sem parentes no País

Apesar de ter cumprido pena, medida determina expulsão automática; nova lei só aceita recurso solicitado no exterior

Jamil Chade ORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

18 Dezembro 2010 | 00h00

A Suíça está acelerando a deportação de estrangeiros que tenham cometido crimes e uma das primeiras vítimas do novo sistema é um brasileiro: Helton Rocha de Oliveira, de 25 anos. O baiano, que mora legalmente em Zurique desde a infância, vai ser deportado hoje para o Brasil, depois de ter cumprido pena por tentativa de assalto aos Correios.

A lei, aprovada em referendo há duas semanas, só entrará em vigor em 2011, mas algumas cidades já exploram brechas para deportar os imigrantes. A medida conhecida como "Ovelhas Negras" torna a expulsão automática, mesmo que a família do condenado viva no país, e só permite recursos no exterior.

Helton e a irmã chegaram a Zurique quando ele tinha 13 anos, porque a mãe se casaria com um suíço. Ao terminar o ensino médio, começou a trabalhar nos Correios. Em 2008, porém, participou de uma tentativa de assalto a uma agência no Cantão de Argóvia. Foi condenado a três anos de prisão. Cumpriu metade da pena e passou ao regime aberto por ser réu primário.

Há uma semana, as autoridades informaram por carta que não o queriam mais no país. Pela lei, ele teria 30 dias para apelar da decisão, mas foi surpreendido na segunda-feira por agentes que o levaram de volta à prisão. Ele vai ser deportado hoje e só poderá entrar com recurso no Brasil.

Em Salvador, Helton terá de viver com amigos. "Ele fez a vida toda dele na Suíça e não tem ninguém no Brasil", conta um dos irmãos, Anderson Rocha de Oliveira, que vive na Inglaterra.

Radicalização. Para ativistas de direitos humanos e partidos de centro e esquerda, a iniciativa tem potencial para afetar a imagem da Suíça no mundo. E o que mais assustou especialistas é que a proposta foi aprovada pelo voto popular. Há três anos, o partido de extrema direita União Democrática Cristã venceu as eleições gerais defendendo maior controle sobre estrangeiros. Cartazes mostravam ovelhas brancas sobre uma bandeira da Suíça chutando para fora uma ovelha negra.

A Organização das Nações Unidas e outras entidades acusaram a campanha de violar os direitos humanos e incitar a xenofobia. Agora, junto dos cartazes, o partido colocou nomes de estrangeiros que deveriam perder o direito de morar na Suíça. Como justificativa, o partido aponta que 62% dos estupros são cometidos por estrangeiros, assim como 59% dos homicídios e 57% dos roubos de carros.

Para o deputado do Partido Verde Geri Müller, o que está acontecendo é grave. "Quando ando pelas ruas das cidades suíças, tenho a impressão de que estamos em um filme sobre o que foi feito com os judeus nos anos 1930 e 1940 pelos nazistas."

Entre as associações de imigrantes, o sentimento é de que o grupo virou bode expiatório da briga política e social.

Imigrantes em alerta

700 são deportadas por ano, segundo o Observatório da População Estrangeira

7 milhões é a população da Suíça

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