‘Subúrbio do centro’ reivindica o foco

‘Subúrbio do centro’ reivindica o foco

Projeto, criado no início do ano por curadora, tenta incluir novamente o tradicional bairro de Campos Elísios no roteiro histórico e cultural

Juliana Diógenes, O Estado de S.Paulo

22 Outubro 2017 | 03h00

SÃO PAULO - Ao decidir comprar um imóvel no bairro de Campos Elísios, no centro de São Paulo, saltaram aos olhos da curadora, empresária e pesquisadora de cultura urbana Caru Albuquerque o baixo valor e o espaço dos apartamentos, além dos detalhes históricos esculpidos nos edifícios. Ela comprou e reformou um apartamento no Edifício Cícero Prado, na Avenida Rio Branco, ícone da arquitetura modernista.

Quando olhou com atenção ao redor, porém, Caru começou a sentir falta de serviços básicos: bares, restaurantes e farmácias. Para acessá-los, precisava recorrer a estabelecimentos de bairros vizinhos, como Santa Cecília. Também começou a perceber que amigos e parentes tinham medo de visitá-la, pela proximidade com a região da Cracolândia. Conversando com moradores do bairro, concluiu que as demandas pessoais eram as mesmas da vizinhança.

Fazendo uso da experiência na área da cultura e da pesquisa urbana, ela criou no início deste ano um projeto para tentar incluir o bairro no roteiro histórico e cultural da cidade, com economia criativa e promoção de eventos culturais. Nasceu o Subcentro, um projeto cultural que busca chamar atenção de moradores, turistas e empresários da cultura para o Campos Elísios. 

O projeto está mapeando ateliês, galerias, centros culturais, bares e restaurantes para articular a realização de eventos coletivos que estimulem a movimentação de pessoas no bairro. O evento de lançamento do projeto ocorre hoje na Praça Olavo Bilac, próximo ao Elevado Presidente João Goulart, o Minhocão. 

Além da Feira, roteiros históricos por casarões e equipamentos culturais do bairro estão sendo preparados. “O Campos Elísios é o subúrbio do centro, por isso o nome Subcentro. O nosso bairro tem mesmo características de interior. A verticalização em massa não atingiu o bairro, que tem muitos imóveis tombados”, explica Caru. “Queremos fazer um site com toda a programação dos eventos do bairro”. 

Estigma. Para Octavio Pontedura, sócio-proprietário da Refúgios Urbanos, imobiliária com foco na história e na arquitetura, de alguns meses para cá teve início um movimento, “ainda tímido”, de gente mais jovem passando a procurar apartamentos no bairro. 

São pessoas com idade entre 35 e 40 anos, solteiros ou casados, sem filhos. “Apartamentos nessa região são amplos e confortáveis. Quem escolhe um apartamento desses quer morar bem dentro da sua casa.” 

Mas, segundo Pontedura, imóveis no bairro ainda carregam um estigma de insegurança. “A primeira coisa que a pessoa pensa é na Cracolândia”, destaca.

Experiência internacional. É comum o movimento de jovens adultos de morar e desenvolver a economia criativa em áreas degradadas, na opinião do arquiteto e urbanista Valter Caldana, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, onde coordena o Laboratório de Políticas Públicas. Bairros de Nova York, Paris, Londres e Amsterdã já passaram por processo semelhante décadas atrás. 

“Isso aconteceu em grandes cidades do mundo nas décadas de 1980 e 1990, que é esse retorno ao centro, a um modo de vida que não dependa tanto de deslocamentos, onde você muda o padrão de consumo”, explica o professor. Para ele, iniciativas da comunidade como o projeto Subcentro são importantes para jogar luz a “uma São Paulo belíssima que não vemos mais, pois está encoberta pela poeira da metrópole”.

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