Subindo pelas paredes ensaboadas

Quais autores mais o influenciaram? - quis saber, gravador em punho, a menina do curso de Letras.

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

13 Março 2011 | 00h00

Como o quatrocentão que saca bandeirantes & barões para encorpar o pedigree, me veio a tentação bocó de desfiar nomes ilustres ou lustrosos, na tentativa patética de respaldar nos doutos minha prosa chinfrim. Jakobson, Kristeva, Derrida. Saussure e sua súcia. Foucault? Fuquei! O que me resta de senso do ridículo me reteve; ainda não perdi, para usar uma bobice em voga, a loção.

Justiça me seja feita: houve tempo em que destemidamente me embrenhei na prosa farpada dos supracitados e de vários outros. Achava, e não estava enganado, que como aspirante às letras era obrigação minha desbastar não só os poetas e ficcionistas graúdos como também os teóricos. Me lembro de ter atravessado, qual caruncho, os quatro volumes - em espanhol, ainda por cima - da Estética de Georg Lukács, para chegar à última contracapa com a língua (não a espanhola) de fora. Pergunte se guardei uma frase, uma ideia sequer daqueles livros, que depois revendi ao Fernando Mitre. Meu amigo e colega deve ter feito melhor uso deles. Vai ver que até vem destilando doses de Lukács na programação da TV Bandeirantes, da qual é diretor.

Me lembro também das incontáveis tentativas que fiz de ler os três volumes da Historia Social de la Literatura y del Arte, do não menos húngaro Arnold Hauser, e de como, ao cabo de umas poucas páginas, ainda no período Paleolítico, eu me sentia escorregar como por uma parede de azulejos ensaboados, indo desabar no chão dos ignaros. Se começarem a dizer por aí que não passei do Paleolítico, humildemente terei que concordar. Será culpa de autores húngaros lidos por brasileiro em idioma espanhol?

Pouco provável. Também não tive sucesso no desbravamento do Capital, e olhe que esse eu encarei em português. A mesma parede ensaboada. Já estava decidido a adiar a leitura do catatau para o Milênio Socialista quando um militante condoído me passou - por debaixo da mesa, como inconfessável muamba ideológica - uma versão em quadrinhos da obra de Marx. O que sei de marxismo está no gibi.

Mas e a estudante de Letras, com seu gravador? Digo apenas que não lhe passei cheque sem fundos, posando disso ou daquilo; sem pretensão de pegar carona em cepas nobres da literatura, me limitei a enumerar autores que releio desde a longínqua adolescência. Até por se tratar de referências óbvias - Machado, Drummond, Graciliano -, não é caso de enumerar também aqui.

O que quero dizer, isto sim, é que me faltou a desconcertante petulância do António Lobo Antunes. Indagado sobre influências, o grande romancista português, longe de vir, como qualquer dos pares, com joyces e balzacs (que por certo leu, e com proveito), abriu o baú de suas leituras de menino. Só faltou chegar ao almanaque do Pato Donald. E por que não, se a biblioteca infantil o formou - a ele e a todos nós, escritores ou não - bem antes de qualquer outra, naquela altura da vida em que, avestruzes literários, lemos o que nos caia nas mãos, até mesmo boa literatura?

Machado, Drummond, Graciliano, claro - mas também Disney. Se bobear, os catecismos seminais de Carlos Zéfiro, edificantes à sua maneira. Bem antes deles, Lalau, Lili e o Lobo, de Raphael Grisi, o primeiro livro que, recém-saído da cartilha, eu li de ponta a ponta, num canto do pátio da Escola 12 de Dezembro, tomado de irrepetível felicidade.

Os desastres de Sofia, O general Dourakine, As meninas exemplares, O bom diabrete - até hoje não sei qual das histórias da Condessa de Ségur me deu mais alegria. Me encharquei também das aventuras de Tom Sawyer e Karl May, e das façanhas completas de Tarzan, by Edgar Rice Burroughs - existe ainda a coleção Terramarear, que já no nome, ao grudar palavras, nos tirava o fôlego? E que dizer do terrificante João Felpudo? Este merece tratamento à parte, até porque o autor me deve, por baixo, seis meses de terapia. Fica para a próxima.

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