SP vive uma nova onda imigratória síria

Formada por compatriotas, rede de solidariedade paulistana ampara refugiados de país em guerra civil no Oriente Médio

ARTUR RODRIGUES, O Estado de S.Paulo

17 de fevereiro de 2013 | 02h04

Uma das colônias que mais influenciaram a vida paulistana no último século voltou a crescer. A nacionalidade síria, que nem sequer constava mais da lista de refugiados no Brasil, passou a ocupar o sexto lugar em 2012 - e a maioria dos imigrantes acaba em São Paulo, onde foram feitos 67% dos pedidos. Para acolher os recém-chegados, comerciantes e empresários compatriotas arrecadam recursos para alugar casas e comprar comida.

O motivo da nova onda migratória é a guerra civil no país do Oriente Médio que, prestes a completar dois anos, já matou cerca de 70 mil cidadãos e obrigou mais de 700 mil a fugir. O vendedor Jihad Mohammed, de 33 anos, foi um deles - saiu da Síria com a família após ter a casa destruída por um míssil. Subornou agentes do Exército para chegar ao Líbano e de lá vir para o Brasil. "Se voltar, eu morro."

Desde 2011, quando começou a revolta contra o ditador Bashar Assad, os sírios fizeram 121 solicitações de refúgio ao Brasil. No ano passado, foram 82, atrás apenas de Colômbia (167), Senegal (129), Guiné (123), Bangladesh (103) e Congo (99). O número, porém, não reflete a realidade. "Deve haver muito mais gente que não fez a solicitação", diz Andrés Ramires, representante do Alto Comissário das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) no Brasil.

A escolha do Brasil como destino não é aleatória. Por questões econômicas, os sírios começaram a se estabelecer aqui como mascates ainda no século 19 e prosperaram no setor de armarinhos. Em São Paulo, ocuparam áreas comerciais tradicionais, como a Rua 25 de Março e o Bom Retiro. Com o tempo, ganharam influência também nas universidades e na política.

Há 15 anos na capital, o comerciante Amer Masarani, de 41, integra um grupo de auxílio aos compatriotas. "Nos juntamos para alugar cinco casas, onde vivem cerca de 20 pessoas. Mais gente nos procura, mas não temos condições de ajudar", diz ele, que reclama da falta de apoio do governo brasileiro, que diz que repassa verba a entidades como a Cáritas Diocesana.

Sem distinção. O padre Gabriel Daho, de 42 anos, da Igreja Sirian Ortodoxa Santa Maria, diz que "pessoas de mãos virtuosas" da comunidade têm feito doações e arrumado empregos para refugiados, sem fazer distinção entre cristãos e muçulmanos. "A Síria nunca fez diferença entre raças e religiões e sempre abriu os braços para pessoas de países em guerra", diz. Ele apoia cerca de 20 pessoas e faz as vezes de professor de português.

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