Taba Benedicto/Estadão - 28/04/2022
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SP vai fazer mudanças na Cripta Imperial e no riacho do Ipiranga para celebrar Independência

Intervenções previstas pela Prefeitura de São Paulo incluem obras de acessibilidade, como instalação de elevador, e pintura da Casa do Grito

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2022 | 15h00

A Prefeitura de São Paulo prepara um “banho de loja” em espaços ligados ao 7 de Setembro no Ipiranga, zona sul paulistana. Entre ações em tramitação e licitação, estão obras de acessibilidade e reforma de banheiros na Cripta Imperial, limpeza e troca de granitos quebrados no Monumento à Independência, pintura da Casa do Grito e novo paisagismo para valorizar a vista do Córrego do Ipiranga (também chamado de "Riacho do Ipiranga").

As mudanças estão em um edital em tramitação, pela SP Obras, vinculada à Prefeitura, cujo resultado será divulgado em 12 de maio. O valor estimado é de R$ 4,876 milhões, porém será selecionada a empresa que oferecer o menor preço. 

Com uma demanda de tempo e recurso maior, o restauro do monumento ficará para um momento posterior às festividades, embora a gestão Ricardo Nunes (MDB) afirme que realizará a intervenção. Outra mudança planejada para depois de setembro é a troca do esquife com os restos mortais da imperatriz D. Amélia de Beauharnais, disposta na cripta juntamente com D. Pedro I e D. Leopoldina.

“O Jardim (Francês, em frente ao Museu Paulista), o Monumento, a Casa do Grito… São projetos que a gente vem trabalhando desde o ano passado com vistas para os eventos dos 200 anos”, diz Marcos Monteiro, presidente da SP Obras e secretário municipal de Infraestrutura Urbana e Obras. “(A ideia é) Entregar esses monumentos em condições de uso e com acessibilidade."

O prazo de execução é de 10 meses, com a determinação que a maioria do trabalho esteja pronta até agosto. Isso inclui a parte de acessibilidade, por exemplo, com novas rampas, nivelamento e elevador na parte interna do monumento — que tem quatro níveis, três pisos na área museológica e um na cripta, exclusivamente acessada por degraus. 

A intervenção prevê, ainda, a demolição de parte das lajes e outras alvenarias internas para aumentar a fluidez do espaço, a reforma dos banheiros, a troca do sistema de climatização por uma opção com menor emissão de ruído e a instalação de placas de sinalização em braille, dentre outras mudanças. Além disso, inclui o fechamento da parte superior da cripta com um forro de mármore travertino amarelo.

Na parte externa, o edital prevê uma limpeza com jateamento e outras técnicas nos degraus e outras partes, exceto as esculturas. Já os jardins do entorno serão adaptados para virarem “jardins de chuva” (técnica que drena a água e evita alagamentos) e passarão pela recuperação das peças de granito quebradas do piso e limpeza.

Hoje, o local apresenta acúmulo de lixeira mais persistente e alguns rabiscos, com nomes e afins. Nas esculturas, a necessidade de restauro é evidenciada pelas tonalidades de verde e marrom, em parte efeito da exposição às intempéries e anos sem um trabalho de recuperação, cuja corrosão em andamento foi apontada em avaliações de técnicos do município em 2008.

Já para a Casa do Grito, que hoje está com parte da estrutura exposta pela queda de revestimento, o edital prevê a pintura da fachada e o reparo de trincas e do reboco, entre outras intervenções de pequeno porte. Também está determinada a implantação de novos caminhos externos de concreto e duas novas rampas, do mesmo material, para dar acessibilidade no acesso e maior protagonismo ao espaço (integrante da rede Museu da Cidade).

Os dois mirantes em semicírculo localizados mais nas proximidades da Rua dos Patriotas serão reformados. Entre as mudanças, está a reposição dos balaústres de concreto faltantes na maior parte das estruturas, reparos na viga de coroamento dos balaústres, reposição das peças de mosaico português faltantes no chão e aplicação de tinta antipichação.

Monteiro comenta que outras intervenções ocorrerão posteriormente. “O restauro das esculturas do monumento é muito mais complexo, muito mais cuidadoso, não entrou nesse primeiro momento, vai ficar após as festividades dos 200 anos.”

Segundo o secretário, a SP Obras está com um segundo edital de paisagismo para dar mais protagonismo ao entorno do Córrego do Ipiranga. “É para aproximar as pessoas do córrego, que tenham mais convivência com o espaço de importância para a cidade”, diz.Ele também aponta que a gestão segue em conversa com a Sabesp e acredita que a despoluição do córrego estará concluída neste ano.

O espaço do riacho tem duas passarelas e é basicamente utilizado por pessoas em atividades de corrida e caminhada. Entre famílias, casais, adolescentes, pessoas com cães e skatistas que costumam circular naquele ponto, a maioria costuma parar nos degraus do lado oposto do monumento, voltado ao Parque da Independência e com maior movimentação de pessoas.

Outro projeto prevê paisagismo no 'eixo histórico'

Também na Prefeitura, na pasta de Urbanismo, há a previsão de execução neste ano do projeto “Eixo Histórico Ipiranga”, que tem o objetivo de melhorar as “condições de acesso aos monumentos e espaços que representam o núcleo histórico da Independência do Brasil”. Entre as intervenções previstas, estão reformas de calçadas e canteiros, instalação de jardins de chuva, ampliação do paisagismo e instalação de um “espaço de contemplação” para o Riacho do Ipiranga, na Praça do Monumento, do lado de fora do parque. 

As principais vias contempladas são as Avenidas do Estado (entre as Ruas Leais Paulistanos e a Rangel Pestana), Dom Pedro I e Teresa Cristina. Além disso, a proposta inclui mudanças na sinalização viária, para reduzir a poluição visual e dar maior destaque aos monumentos na paisagem. No Plano Anual de Aplicações, estão previstos R$ 2,650 milhões para o projeto.

Além disso, o restauro do Jardim Francês em frente ao Museu Paulista está em obras, com acesso fechado por tapumes. Já a restauração do museu foi concluída, de acordo com a USP, com a etapa atual voltada às ampliações. A previsão é que o edifício-monumento seja reaberto no feriado de 7 de Setembro, com 12 exposições.

Na parte cultural, um contrato do governo estadual com uma organização privada prevê uma programação especial no parque durante o mês de setembro, com o “Festival Ipiranga” e “Festival 200 Anos”, com atividades culturais, de lazer e esportivas. Outros eventos que já ocorrem periodicamente também devem ser incorporadas, como encenações da Cavalgada da Independência, uma exposição de carros antigos e outros.

Moradores se dividem entre elogios e sugestões de mudanças

No dia a dia, o entorno do monumento e o Parque da Independência são procurados especialmente por moradores de bairros próximos. Em visita ao local na quinta-feira, 28, o Estadão encontrou tanto frequentadores satisfeitos quanto com críticas e sugestões de mudança. 

Para a fotógrafa Flávia Jacó, de 33 anos, moradora do Ipiranga, a zeladoria é satisfatória em comparação a outros espaços verdes da região. “Até que cuidam bem, está dentro da normalidade”, conta ela, que vai ao local com frequência. 

Já o educador físico Bartolomeu Rodrigues, de 32 anos, do Cambuci, apontou para a grama que estava sendo aparada naquela tarde, na qual uma parte estava com mais de 30 centímetros de altura. “Fica mais assim, do que bem cortadinha”, diz. Também sugere ter mais lixeiras, árvores (pela sombra) e bancos, pois, no entorno, a única opção é parar nos degraus do monumento.

Monumentos foram criados e adaptados para celebrações da Independência

O Monumento à Independência  foi inaugurado em 1922, ainda inacabado, para as celebrações do centenário do grito. O projeto é do artista italiano Ettore Ximenes e foi selecionado em concurso público internacional. A entrega completa ocorreu em 1926. É tombado nas esferas federal, estadual e municipal, dentro do conjunto Parque da Independência.

Para a celebração dos 150 anos do grito, o monumento passou pela implantação da Cripta Imperial, que recebeu os restos mortais de D. Leopoldina, D. Pedro I e D. Amélia (segunda esposa do imperador) nos anos de 1954, 1972 e 1982, respectivamente. A distribuição museológica dentro do espaço foi implantada em 2001. Ao todo, a parte interna tem 929,5 metros quadrados.

Já a Casa do Grito está em bom estado de conservação, de acordo com o edital da SP Obras. O espaço foi por décadas associado a uma edificação visível na pintura de Pedro Américo sobre o grito de Independência, ideia que foi desconstruída nas décadas mais recentes. Hoje, destaca-se por ser um das poucas construções remanescentes em taipa de pilão (pau a pique) na cidade. Os documentos mais antigos que comprovam sua existência datam de meados do século 18.

Restauros

Questionada pelo Estadão, a Prefeitura afirmou, em nota, que não há previsão para o restauro do Monumento à Independência, apesar de ter constatado as corrosões nas esculturas há 14 anos. "Informamos, também, que está em estudo de como será a nova esquife da Dona Amélia, de modo a garantir sua conservação e valorização."

Sobre o eixo histórico Ipiranga, disse que o projeto está dividido em cinco fases e que não há prazo definido para o início das obras, embora anteriormente tenha sido incluído no plano de execução do Fundo Municipal de Desenvolvimento Urbano (Fundurb) deste ano. Também informou um novo custo estimado, de R$ 21,9 milhões.  

Além disso, a gestão respondeu que o terreno de 45 mil metros quadrados anexado ao parque está em obras para  instalação de pista de skate, parquinho, aparelhos de  ginástica e outros equipamentos e tem entrega estimada para antes das celebraçõs bicentenário. Em 2018, o Município havia anunciado que os trabalhos seriam concluídos no ano seguinte. 

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