Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

SP tem corte de água no meio da tarde; Alckmin troca ‘gerente’ da crise hídrica

Racionamento, que começa às 22 horas, foi antecipado, relatam moradores; Sabesp nega existência de queixas. Governador anuncia presidente de conselho mundial como novo secretário

Fabio Leite e Rafael Italiani, O Estado de S. Paulo

12 Dezembro 2014 | 03h00

As torneiras estão secando mais cedo em São Paulo. Antes restrita ao período noturno, quando o consumo é menor, a redução da pressão na rede de distribuição feita pela Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) tem provocado falta d’água desde o período da tarde em imóveis espalhados por todas as regiões da capital. O abastecimento só volta na manhã seguinte.

Em meio ao agravamento da seca, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) anunciou nesta quinta-feira, 11, o presidente do Conselho Mundial da Água, Benedito Braga, como novo secretário de Recursos Hídricos, sinalizando medidas mais severas na gestão da crise. Braga vai substituir Mauro Arce a partir de 1.º de janeiro.

Revelada pelo Estado em abril, a redução da pressão à noite em até 75% é a medida que mais economiza água, segundo a Sabesp, porque diminui as perdas por vazamento na tubulação. Em setembro, por exemplo, foi responsável por 54% de toda a economia registrada, 48% mais do que a alcançada pela população no programa de bônus na conta. O problema é que a prática, intensificada pela empresa por causa da crise, faz com que a água não tenha força para chegar às regiões mais altas e afastadas dos reservatórios dos bairros.


Exemplos. “Estão cortando (a água) antes e voltando depois”, afirma o músico Léo Doktorczyk, de 58 anos, morador da Pompeia, zona oeste capital, região abastecida pelo Sistema Cantareira, manancial que está em situação crítica, com apenas 7,6% da capacidade, considerando a segunda cota do volume morto. “Ontem mesmo, às 17h30, já não tinha água. Moro em uma casa antiga e quase todo o encanamento está ligado na rede da Sabesp. Minha filha chega em casa da escola e não pode mais tomar banho”, completa.

“No começo, eles cortavam a água às 22 horas. Faz uns dois meses que o racionamento tem começado mais cedo”, relata Wilson Vieira, de 42 anos, que mora em Pirituba, bairro da zona norte da capital, também abastecido pelo Cantareira. “Agora não está nem mais enchendo a caixa d’água. Sou cardiopata, não consigo ficar carregando balde para cima e para baixo”, diz a dona de casa Edna Tenório Cavalcante, de 56 anos, que vive o mesmo problema no bairro da Cachoeirinha, na zona norte da capital.

No Campo Limpo, bairro da zona sul abastecido pelo Sistema Guarapiranga, o engenheiro Hugo Gallardo, de 72 anos, já estava habituado com a redução de pressão às 21 horas. Mas, há três semanas, notou que a Sabesp começou a diminuir a intensidade do abastecimento às 14 horas. “Está acontecendo todos os dias. Percebi quando fui limpar o quintal que estava sujo da tinta que o vizinho usou para pintar a parede. Não deu para usar a mangueira porque a água estava fraca”, explicou. 

Moradora de Guaianases, bairro da zona leste atendido pelo Sistema Alto Tietê, que opera com apenas 4,4% da capacidade, Aline Medeiros Nogueira da Costa, de 25 anos, notou a redução da pressão dando banho no filho de três meses. “Eu costumo usar a água da rua porque é mais quente para o banho. Acontece que a Sabesp está diminuindo a pressão pouco antes das 17 horas”, disse. Segundo ela, isso foi notado há dois meses. Anteriormente, a redução costumava acontecer às 20 horas. 

A falta de água também está começando mais cedo no centro de São Paulo. O empresário Edney Vassalo, de 40 anos, dono de um bar na Praça Roosevelt, afirmou que a Sabesp cortava a água entre 23 horas e meia-noite. Há duas semanas, o racionamento foi antecipado para as 20 horas. “No dia seguinte, a água continua voltando no mesmo horário e impede de encher as caixas d’água”, disse. Ele comprou dois baldes de 100 litros para armazenar água para limpar o banheiro e lavar a louça e não fechar o bar mais cedo.

Em novembro, o atual secretário de Saneamento e Recursos Hídricos, Mauro Arce, disse que os cortes por causa da redução da pressão ocorrem somente nos imóveis que não têm caixas d’água. A presidente da Sabesp, Dilma Pena, disse que a medida atinge 2% da população e “veio para ficar”. 

Sem queixas. Em nota, a Sabesp negou a prática de racionamento e informou que não recebeu queixas de nenhum dos casos listados pela reportagem. “Vale ressaltar que o número de reclamações sobre falta d’água é menor neste ano em relação a 2013”, afirma a companhia. A nota diz ainda que é “incorreto pressupor falhas no abastecimento em toda a cidade com base em uma amostra reduzida”.

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