Epitacio Pessoa/AE
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SP tem chuvisco, mas segue sem plano de emergência para os dias secos

Em 24 h, temperatura cai 15°C e umidade passa de 20% para 77%; mas primeiro sistema de alerta climático, da USP, só sai em outubro

Paulo Saldaña, O Estado de S.Paulo

06 de setembro de 2010 | 00h00

O chuvisco que atingiu São Paulo ontem encerrou uma estiagem de um mês, uma das maiores sequências já registradas na capital. A garoa trouxe alívio ao paulistano, que enfrentou o agosto mais seco desde 1961. A temperatura foi de 31,2°C para 16,7°C em 24 horas e a umidade aumentou de 20% para 77% às 15h, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).

No entanto, a repetição de períodos secos é dada como certa por estudiosos - na quarta, conforme o Inmet, a umidade já deve ficar abaixo dos 30%. E qual a melhor forma de prevenção? Especialistas ouvidos pelo Estado são unânimes: a cidade precisa de um plano definido que trate a combinação baixa umidade e ar poluído como problema de saúde pública. O plano de emergência municipal, por exemplo, é de 2008, mas tem apenas referências vagas - nada de restrição ao trânsito, por exemplo.

E apenas as recomendações já existentes não bastariam. Seria necessária uma série de medidas a curto, médio e longo prazo. A melhor alternativa para o monitoramento de situações climáticas, por exemplo, está em análise na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP). "Teremos um indicador que vai juntar umidade, temperatura, poluição e outras informações com os impactos e riscos à saúde", explica a professora Maria Regina Cardoso, que coordena o programa. A equipe vem montando um laboratório, a ser lançado no próximo mês.

A professora traçou medidas inspiradas em outros países que poderiam ser adotadas em situações como a vivida no mês passado. No Chile, um sistema de acompanhamento dos atendimentos nos hospitais cria um índice online. "É uma espécie de sentinela. O índice de atendimentos vai para uma rede de dados, que já é cruzada com o monitoramento da qualidade do ar."

Com base nessas informações, escolas são fechadas, o trânsito de carros é interrompido e até fábricas acabam paralisadas. Por aqui, primeiramente se espera o nível de umidade cruzar limites drásticos (como o mínimo de 12% estabelecido pela Organização Mundial de Saúde) para depois decidir alguma providência. Além disso, o sistema de saúde demora para computar uma possível alta de doenças causadas pela poluição.

Antes de sofrer com o calor e o ar seco, o paulistano viveu no verão deste ano o período mais chuvoso da história. A diferença é que, para os problemas de enchentes, as respostas são mais factíveis: piscinões, obras viárias ou desocupação de áreas de risco. Já no caso da poluição as ações são mais complexas.

Para melhorar a qualidade do ar, as medidas de curto prazo são paliativas, explica o médico Nelson Cruz Gouveia, professor do Departamento de Medicina da USP. "Por isso, precisaríamos de um plano de contingência bem formulado", explica. "Teríamos de planejar uma série de medidas, mas a restrição de veículos e até o fechamento do centro seriam importantes."

Em São Paulo, a poluição é basicamente a dos carros. Para os especialistas, não há como falar em controle da qualidade do ar enquanto não houver programa eficiente de restrição de circulação. A Prefeitura tem desde 2008 um plano para situações de baixa umidade, que elenca recomendações, e não ações efetivas.

No dia 27 de agosto, quando a baixa umidade do ar atingiu 12% - no limite do estado de emergência -, o prefeito Gilberto Kassab (DEM) cogitou endurecer o rodízio, mas não detalhou ações. Ao contrário da água, é impossível limpar o ar. Depende do clima e de uma política pública eficiente de diminuição da emissão de poluentes.

Saúde. O tempo quente agrava a concentração de poluentes. Como não venta e não chove, não há dispersão. Mesmo em áreas consideradas não poluídas as condições podem ser desfavoráveis. "Em alguns casos, fatores meteorológicos são mais preponderantes do que a poluição", diz a professora de climatologia Edelci Nunes da Silva, da Universidade Federal de São Carlos. "Mudanças drásticas de temperatura no mesmo dia têm tido destaque entre os motivos de problemas de saúde", diz ela, que acaba de concluir um doutorado sobre relações do ambiente atmosférico com doenças dos aparelhos respiratório e circulatório. "A baixa umidade é um fator central, porque propicia dias com essas características, meio parecidos com os do deserto." / COLABOROU RODRIGO BURGARELLI

O QUE PODE SER FEITO

A curto prazo

Aumentar a restrição de veículos; criar um sistema de monitoramento de hospitais; interromper aulas; fechar o centro; recomendar moderação em atividades ao ar livre

A médio prazo

Campanha para conscientizar a população sobre o valor de medidas restritivas; um plano consolidado

A longo prazo

Diminuição do tráfego de carros; dar preferência ao transporte público e não ao individual ; ampliar o metrô; resgatar matas e vegetação

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