Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

SP tem 250% mais mortes causadas por temporais; chuva na capital é recorde

São 35 casos e média é de quase uma vítima a cada dois dias; em São Paulo, conforme o Instituto Nacional de Meteorologia, a precipitação acumulada é 48% maior do que em 2018 e acima da média histórica

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

19 de março de 2019 | 03h00

SOROCABA – Chuvas intensas e tempestades com raios já causaram 35 mortes este ano no Estado de São Paulo, conforme dados da Coordenadoria Estadual de Defesa Civil. A média é de quase uma vítima a cada dois dias. O número é 250% maior que no mesmo período de 2018, quando aconteceram 10 óbitos. Em 2017, haviam sido 19. As vítimas morreram arrastadas por enxurradas, soterradas pela queda de muros, casas e barrancos ou atingidas por raios (6 casos).

Apenas na Região Metropolitana de São Paulo, incluindo a capital, 13 pessoas morreram entre a noite do dia 10 deste mês e a manhã do dia 11, em consequência dos temporais. Naquela manhã, Lizandro Baptista de Rezende, de 44 anos, saiu de casa para tirar o carro da rua. A água estava subindo muito depressa e ele imaginou que poderia levar o veículo para uma região mais alta. Não foi possível. O carro foi arrastado e caiu no Córrego de Utinga, em Santo André, no ABC. Baptista morreu por afogamento.

Nesta segunda-feira, 18, uma semana depois da tragédia, a mulher dele, Pamela Tuane Souza Rezende, de 31 anos, ainda se sentia perdida e indignada pelo fato de nenhuma autoridade sequer ter ido à região para ver se a tragédia não poderia se repetir. Esta segunda-feira foi o primeiro dia em que ela pôde voltar para casa. A cozinha, que foi completamente inundada pelas chuvas, continuava desorganizada. “Estou tentando recomeçar pelas coisas práticas. Estou tentando arrumar a casa, pagar as contas que estavam com o Lizandro e retomar, aos poucos, a vida.”

Em São Paulo, conforme o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), a chuva acumulada até este domingo, 17, era de 839,8 milímetros, 48% a mais que em 2018, quando choveu 567 milímetros. O volume também está acima da média histórica, de 692,7 mm, e é o maior em 15 anos. As chuvas foram intensas em quase toda a região metropolitana, levando o governo paulista a já ter decretado situação de emergência em oito municípios: São Paulo, Mauá, São Caetano do Sul, Santo André, Diadema, Ribeirão Pires, São Bernardo do Campo e Rio Grande da Serra. Desde janeiro, 102 cidades mobilizaram a Defesa Civil, reportando danos causados por chuvas e temporais. Dessas, 42 pediram ajuda humanitária – em 2018, só 14 solicitaram. As prefeituras de Sumaré e Adamantina decretaram situação de emergência, e a de São Simão, calamidade.

Em Salto, por exemplo, a área central da cidade ficou alagada três vezes este ano pelas enchentes no Rio Tietê. A sujeira invadiu o bar do comerciante Luiz Carlos Ganzano, de 55 anos, que teve de fechar o estabelecimento por dois dias para a limpeza. “Quando vejo o rio subindo, fecho as portas e vou embora, pois, se ficar, a gente corre o risco de ser levado pela correnteza.”

Nesse período, registros das prefeituras dão conta de que ao menos 840 árvores caíram em praças e vias públicas, com danos materiais e interrupção no fornecimento de energia. As enxurradas danificaram o asfalto e abriram buracos em vias municipais e rodovias. Ao menos 12 estradas sofreram interdições. A Rodovia dos Tamoios e a Rio-Santos ficaram fechadas por mais de 24 horas. Na manhã de ontem, um deslizamento bloqueou a Anchieta.

Causas 

O meteorologista Marcelo Seluchi, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), observa que “o período chuvoso de 2018/19 não está sendo muito diferente dos anos anteriores em quantidade de chuva”. “O problema é que elas estão mal distribuídas. Choveu pouco em algumas regiões, prova disso são os reservatórios do Sistema Cantareira, que não estão com muita água, e muito em outras. Este ano, as chuvas se concentraram mais na capital e no litoral.”

Ele disse que outros fatores, como a vulnerabilidade de áreas de risco, onde as pessoas estão mais expostas, podem ter mais influência sobre o número de mortes. “Em Ubatuba, por exemplo, tivemos valores absurdos de chuva, coisa de quase 300 mm em dois dias, mas não houve sequer uma morte. Diferentemente do que aconteceu em São Paulo, onde choveu menos, mas há pessoas expostas.”

Conforme o especialista, quando a chuva é concentrada em áreas mais urbanizadas, os alagamentos são maiores porque o asfalto impede a absorção da água. “Se os bueiros já não dão conta de uma chuva muito intensa, tem também o problema do lixo, que acaba entupindo tudo.” Na Grande São Paulo, a ocupação de áreas de risco é agravante. “Choveu muito justamente nessas áreas, causando soterramentos.”

‘A dor não passa’

“Foi uma perda tão brusca que não há o que conforte, pois a dor não passa”, afirma Karine Santos Oliveira Lopes, de 28 anos, mãe do bebê Bernardo, de 1 ano e 2 meses, morto no soterramento que destruiu a casa da família, em 11 de março, após um temporal em Embu das Artes, na Grande São Paulo.

Eram 4h30. Ela tinha acabado de amamentar a criança e observava o marido, Mike Lopes Alves, de 29 anos, que fazia carinho no bebê, antes de se arrumar para o trabalho. “Foi de repente, a gente ouviu um estalos e veio tudo para baixo. O Mike tentou pegar o bebê, mas caiu tudo em cima dele. Eu saí gritando, pedindo ajuda. Os vizinhos vieram logo, mas só conseguiram tirar o Mike. Meu bebezinho sumiu embaixo daquele monte de terra. Cavamos com a mão, com a pá, com tudo o que deu, não teve jeito.” 

Depois que enterrou o filho, há uma semana, Karine não teve forças para voltar ao cemitério. “Está tudo muito vivo, as imagens não saem da minha cabeça. O que sobrou da casa ainda está lá, mas não tive coragem de entrar. Alguns móveis, as roupinhas dele, está tudo na garagem de um vizinho.” O pai de Bernardo foi retirado com vida dos escombros, mas sofreu um deslocamento no joelho. 

O casal se abrigou na casa do consultor de RH Marcos Donizete Lopes, pai de Mike, no mesmo bairro. O marido está afastado do trabalho e não consegue andar – só se locomove em cadeira de rodas. Hoje passará por avaliação no Hospital Geral de Taboão da Serra para uma possível cirurgia. Karine conta que estavam morando no local da tragédia havia seis meses. Ele comprou o terreno e teve a ajuda da família para erguer a casa. “A gente não sabia do risco.”

A prefeitura de Embu das Artes informou que a área em que aconteceu o deslizamento é de loteamento irregular e sob ação civil pública. O local está sendo monitorado pela Defesa Civil três vezes ao dia e também pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social. / COLABOROU GILBERTO AMENDOLA

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