Ricardo Lima/Estadão
Ricardo Lima/Estadão

São Paulo preserva a tradição do jongo, patrimônio imaterial brasileiro

Dança resiste de geração em geração ao longo de 300 anos, com grupos mantendo até hoje atividades de conservação, registro e difusão

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

09 de novembro de 2021 | 05h00

Um homem e uma mulher dançam no meio da roda. Eles seguem o ritmo dos tambores, enquanto uma pessoa canta, muitas vezes de forma metafórica. O que é lembrado ali é a ancestralidade dos presentes, dos antepassados que tinham na prática uma forma de expressão enquanto a escravidão lhes tirava até o direito de se comunicar entre si.

O nome que se dá é jongo ou caxambu, prática que resiste de geração em geração ao longo de 300 anos e considerada patrimônio imaterial brasileiro após a mobilização de jongueiros organizados dos quatros Estados do Sudeste. Em São Paulo, onze grupos são reconhecidos, mantendo atividades de preservação, registro e difusão, tanto no interior quanto na Grande São Paulo.

As raízes da prática no País remetem à imigração forçada do povo bantu, vindo do então Reino do Congo (território que hoje abrange nações como Angola e República Democrática do Congo) para ser escravizado. Em fazendas de café e cana-de-açúcar, principalmente no Vale do Paraíba, essas pessoas passaram a praticar o jongo como uma forma de trocar informações codificadas, para não serem compreendidas por capatazes ou patrões.

No Livro de Registro de Formas de Expressão do Iphan, no qual foi inserido como patrimônio imaterial em 2005, o jongo é descrito como uma expressão afro-brasileira e uma forma de louvação aos antepassados, consolidação de tradições e afirmação de identidades. Também é destacado que é mantido geralmente em áreas rurais e periferias, além de ter viajado para novos municípios com a migração dos descendentes. 

Como todo patrimônio imaterial, após 10 anos do registro, o jongo está em processo de revalidação, a fim de identificar mudanças e resultados. Durante as pesquisas, constatou-se locais em que parou de ser praticado (como São Luiz do Paraitinga, após a partida de um mestre), mas, majoritariamente, o que o parecer paulista apontou foi uma maior difusão e organização dos grupos, que criaram um encontro estadual anual com 11 deles, sendo o próximo marcado para dezembro (este ano somente online).

Em São Paulo, um dos grupos mais tradicionais é o Jongo Mistura da Raça, de São José dos Campos, fundado pelo Mestre Laudení, de 61 anos, vindo de Barra do Piraí, interior do Rio de Janeiro, onde começou no jongo ainda pequeno e aprendeu a manter a tradição herdada do pai e avô. “Toda a família dançava. Antigamente, os jongueiros se encontravam em casamentos, aniversários, festas de igreja.”

Com cerca de 20 pessoas, o grupo ganhou nome e forma em 2001, após uma participação no Revelando São Paulo, festival de culturas tradicionais no Estado. Desde então, levou o jongo por outras partes do País e, também, às escolas, quando consegue apoio em programas de fomento à cultura, em paralelo a trabalhos como motorista e em obras. O sonho maior é manter um polo de cultura jongueira no bairro em que vive.

A prática tem algumas variações, principalmente a depender das origens geográficas. Em São Paulo, por exemplo, quando uma pessoa começa a cantar após outra, ela costuma falar “cachoeira”, mas em outros locais é mais comum o “machado”. A vestimenta também muda, há locais em que mulheres usam saias de chita, enquanto, em outras, são mais sóbrias. Entre os instrumentos, também há variações, mas o tambor de madeira com couro é um dos maiores símbolos da prática e também dos ancestrais, por isso, são comumente reverenciados.

Também uma liderança e idealizadora do Mistura da Raça, a professora Márcia Cunha, de 49 anos, considera que a preservação do jongo é uma forma de dar luz à resistência e protagonismo afro-brasileiro. “A história do negro ficou esquecida e, quando é contada, falam do negro acorrentado e que apanha. Não se fala que muitas construções existentes até hoje foram cosntruídas pela mão do negro, muitas descobertas foram feitas pelos negros”, diz. “Os pontos (cantos) do jongo contam uma história, a nossa história, que nossos antepassados viveram, que sofreram, mas também canta nossas alegrias, nossa história atual.”

Em duas partes de São Paulo, a tradição de uma mesma família dei a origem tanto ao Jongo Embu das Artes, na região metropolitana paulistana, quanto ao de Piquete, no município homônimo do interior. No primeiro, a liderança é feminina, da Mestre Sol, de 49 anos, enquanto, o outro é liderado por seu irmão mais velho, o Mestre Gil.

“Minha tia-avó contava nas festas que parentes dela tinham conhecido pessoas que pegaram o finzinho da escravidão e faziam o jongo, isso há mais de 200 anos. É ancestral mesmo, não é coisa que meu avô achou bonito e resolveu fazer”, conta a Mestre Sol. Ela se recorda que, antes dos grupos organizados, o jongo fazia parte das folias de reis e outras celebrações, “começava no jongo e terminava no samba”.

O grupo de Embu das Artes é formado por cerca de 28 pessoas, das quais a maioria é da mesma família, de uma tia idosa da Mestre Sol a sobrinhas-netas. Até décadas atrás, mulheres e crianças não eram tão presentes, mas o espaço (e o protagonismo feminino) foi ganhando ao longo dos anos. A liderança de Embu das Artes também destaca a diversidade religiosa do grupo, que têm origens católicas, mas também pessoas de outras religiões.

Ela destaca, contudo, a importância de manter a essência, para evitar um “parafolclore”, como chama. “Se não entender a proposta, vai fazer é volume na roda. É preciso entender o porquê de estar ali, de ter respeito e gratidão pelos que deixaram para a gente. É uma herança, e uma herança finérrima.”

Da mesma forma, o que era uma tradição até pouco tempo atrás majoritariamente oral, também passou a ser registrada. O Jongo Embu das Artes, por exemplo, irá gravar em breve os seus pontos autorais para distribuição em plataformas digitais. “É justamente para não deixar a cultura parada, não deixar morrer”, conta.

A Mestre Sol também tem planos de juntar relatos em texto. “Tem que deixar para os nossos netos, bisnetos. Da mesma forma que dou continuidade ao meu bisavô, gostaria que meus netos dessem continuidade. E cada comunidade tem a sua história.”

Jongo dos Guaianás tem integrantes mais jovens

Diferentemente de seus pares, em que há maior variedade etária, o Jongo dos Guaianás é mais jovem, com integrantes na casa dos 30 anos e seus filhos.  Como não tem mestres próprios, o grupo recebeu os de outros locais para se aprofundar até ser reconhecido como uma comunidade em encontros jongueiros.

Uma das lideranças é a professora Monici Oliveira, de 37 anos, que fala da importância de manter o jongo vivo em na periferia de uma capital, no caso, em Guaianazes, zona leste paulistana. “São bairros predominantes pretos e, às vezes, a gente não conhece a história daqueles povos pretos”, comenta. “Estamos aqui resistindo por esses povos.”

Como em outros grupos, há pontos autorais. Entre os temas, também aparecem questões contemporâneas, como a violência contra a população negra. “O jongo é um momento de partilha, de comunhão, de convívio. Não se monta um palco e está pronto.”

Para ela e outros grupos ouvidos nesta reportagem, ainda falta política pública para dar suporte às atividades e levar o jongo a mais pessoas. “Reconheceram como patrimônio, mas no papel”, considera Monici. “A gente, a maior parte do tempo, arca com tudo”, completa. Ela fala, especialmente, na necessidade de uma salvaguarda aos mestres, que guardam uma história consigo.

Neste contexto, o Centro de Referência do Jongo, de Campinas, também foi um passo considerado importante para a preservação da prática. Liderado pela Comunidade Jongo Dito Ribeiro na sede de uma antiga fazenda, o espaço já teve diversas atividades relacionadas, como exposições, debates e rodas de jongo. A liderança é da Mestre Alessandra Ribeiro, também descendente de mestres jongueiros.

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