Divulgação/Governo de São Paulo
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'SP não será complacente com nenhum tipo de violência policial', diz Doria após denúncias contra PM

Filmagens de agressões a civis, o assassinado de adolescente e o recorde de mortes em supostos confrontos provocaram resposta do governador paulista

Bruno Ribeiro, Marina Aragão e Paloma Cotes, O Estado de S. Paulo

17 de junho de 2020 | 14h29

O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), convocou a cúpula da segurança pública paulista nesta quarta-feira, 17, para afirmar em entrevista coletiva que o Estado punirá policiais flagrados em ações irregulares. O gesto ocorre após ao menos três flagrantes recentes de violência praticada por policiais militares contra cidadãos desarmados, do caso do assassinato de um adolescente de 15 anos, na zona sul, em que policiais estariam envolvidos, e em meio ao recorde histórico de mortes provocadas por PMs em supostos confrontos.

“O governo do Estado de São Paulo não será complacente com nenhum tipo de violência policial, de nenhuma ordem, sob qualquer justificativa. São Paulo tem a melhor polícia do Brasil. Não justifica que poucos comprometam a atuação de muitos. Aqueles que transgrediram, a orientação do governo do Estado e minha, como governador, é que sejam afastados, sejam julgados e, se culpados forem, que sejam penalizados, inclusive com expulsão da polícia”, afirmou Doria. 

Sem citar especificamente nenhum dos casos recentes de violência policial, o secretário da Segurança Pública, João Campos, general reformado do Exército, disse que inquéritos foram instaurados e policiais, afastados ou tiveram prisão preventiva decretada. “Com relação às últimas ocorrências, os inquéritos serão brevemente concluídos. Isso tudo feito em respeito aos familiares das vítimas”.

Campos disse não ter “nenhum compromisso com o erro”. “A missão para a segurança pública é o farol. Nossa missão é proteger pessoas, aplicar a lei e combater o crime.” O secretário, por outro lado, destacou que a corporação é bem treinada e que tem confiança da população. “Quando alguém tem necessidade, se lembram de Deus e do 190.”

O número de pessoas mortas por policiais militares durante supostos confrontos subiu 54,6% em abril e este foi o primeiro quadrimestre mais violento, como mostrou reportagem publicada pelo Estadão. O Estado já estava com a quarentena vigente neste período. O secretário pontuou que, em época de pandemia, com menos gente nas ruas, as viaturas estariam chegando nas ocorrências com mais rapidez, o que poderia indicar a razão para o aumento dos números.  

O secretário da Segurança também disse que o ideal seria que "não houvesse nenhuma morte decorrente de intervenção policial, mas que infelizmente os crimes continuam”. “Gostaríamos muito que não houvesse o confronto”, disse, “mas isso não ocorre”.

Campos também foi questionado sobre a morte do adolescente Guilherme Silva Guedes, que tem gerado protestos em Americanópolis, na zona sul. O principal suspeito do caso seria um sargento da PM, que teria sequestrado e executado o garoto e seria dono de uma empresa de segurança. O secretário disse que o inquérito ainda está em andamento, mas que "se cometeu crime, criminoso é". 

O secretário-executivo da Polícia Militar, Álvaro Camilo, ex-deputado (PSD) e ex-comandante geral da PM, argumentou que todos os episódios recentes foram tratados de forma transparente. “Não existe em nenhum momento outra vontade, na polícia e na segurança pública, (além de) dar transparência total ao que é feito. A própria polícia vem a público apresentar seus problemas e apresentar ações que estão tomando contra aqueles que se desviaram.”

Camilo afirmou ainda que a PM tem agido para garantir o direito dos cidadãos fazerem manifestações públicas de qualquer orientação política, mesmo contra a própria PM. 

Sobre as manifestações, na coletiva, as autoridades foram questionadas sobre um caso, ocorrido na Avenida Paulista, em que dois homens que tinham blusas com suásticas nos braços só foram conduzidos à delegacia após pressão popular. Naquele caso, um PM chegou a empurrar e danificar equipamento de trabalho de um repórter do site UOL que registrou a ação. Os jovens foram liberados na delegacia. 

Campos comentou o caso dizendo que, nas manifestações, “talvez o mais difícil seja identificar os símbolos”. O secretário então foi questionado se havia visto as imagens, e as blusas com as suásticas, e respondeu: “Olha, deixa o delegado fazer o trabalho dele. O delegado é soberano no inquérito.” 

O ouvidor das polícias de São Paulo, Elizeu Soares Lopes, que também estava presente no na coletiva, afirmou que o órgão vem acompanhando as manifestações e os casos de violência policial. "Na sexta-feira, vamos fazer uma reunião para exatamente dar um recado bem claro: nós não podemos compactuar com desvio, com abuso, qualquer que seja, o bom policial é o que respeita a lei, e respeitar a lei é respeitar o direito das pessoas", disse. Lopes está no cargo desde março, após ter trabalhado na Prefeitura de São Paulo. Em entrevista ao Estado, já afirmou que as pessoas não poderiam confundir o órgão com Organizações Não Governamentais (ONGs).

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