'SP não pode perder a chance da Copa'

Para especialista em transporte e governo local, Copa de 2014 será a melhor oportunidade para mudar sistema de trânsito

Flávia Tavares, O Estado de S. Paulo

02 de junho de 2011 | 04h42

SÃO PAULO - Falar de meio ambiente hoje sem relacionar o assunto com o drama dos congestionamentos e do transporte público nas grandes cidades é impossível. Essa foi uma das premissas que David Cadman defendeu ontem no primeiro dia de conferências do C40 - encontro de representantes de 40 cidades do mundo na luta contra as mudanças climáticas, que vai até amanha em São Paulo.

 

Cadman é presidente da Iclei, entidade que é uma espécie de embrião do C40 e reúne 1.220 representantes de mais de 70 países num diálogo sobre sustentabilidade. Ele foi por seis anos vereador de Vancouver, no Canadá, e usa o exemplo da cidade, que se transformou para receber as Olimpíadas de Inverno de 2010. "Foi a nossa chance para transformar os hábitos dos moradores e levá-los a mudar de vez para o transporte público."

 

O que tem sido feito de melhor nas cidades que o senhor representa para diminuir o problema do trânsito?

Em primeiro lugar, estamos trabalhando muito fortemente o conceito de cidades compactas. Isso quer dizer que devemos manter os pontos centrais das cidades ou até dos bairros o mais próximos possível, para que a locomoção seja cada vez mais dispensável e, quando essa locomoção for necessária, que ela seja feita de maneira mais eficiente.

 

Quais são as melhores formas de transporte nas cidades compactas?

Em zonas centrais das cidades, o ideal é a caminhada. Hoje, em Vancouver, 80% da locomoção na área do centro é feita a pé, de bicicleta ou no transporte público. E só conquistamos esse feito porque usamos a grande oportunidade da Olimpíada de Inverno para mudar a cultura dos moradores.

 

Em que sentido?

Olha, não é possível resolver a questão do trânsito sem mudar a estrutura da cidade, mas também a cultura de seus moradores. No ano passado, quando seríamos anfitriões desse grande evento, tomamos medidas e conseguimos reduzir em 42% o número de carros na zona central da cidade. Essas pessoas passaram a usar transporte público e não voltaram para seus veículos.

 

De que forma essa mudança foi feita?

Primeiro, nós literalmente fechamos o acesso ao centro, até por medida de segurança. Mas fizemos também uma grande campanha de conscientização da população, para que ela acreditasse no transporte público e passasse a usá-lo. Convencer as pessoas não é só um exercício de retórica. Você tem de mostrar que o sistema funciona.

 

E como a cidade de Vancouver conseguiu um transporte público eficiente?

Investindo. Um de nossos principais focos foram os corredores de ônibus. Fica mais fácil você convencer um morador a trocar seu carro pelo transporte público se ele vir os ônibus andando mais rápido do que ele, que está parado no congestionamento. Mas, veja, esses investimentos ficam infinitamente mais viáveis quando a cidade está prestes a receber um grande evento. O governo federal ajuda, a iniciativa privada se interessa. É por isso que São Paulo não pode perder a chance que terá com a Copa do Mundo de 2014.

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