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SP ganha projetos de grifes mundiais da arquitetura

Cidade terá 1º prédio na América Latina criado pelo americano Daniel Libeskind; empresas investem em desenhos consagrados

Rodrigo Brancatelli, O Estado de S.Paulo

14 de novembro de 2010 | 00h00

De 1997 até ontem, apenas 73 reportagens, artigos e notinhas publicados nas páginas do Estado chamaram São Paulo de "bonita". Mais do que despeito com a maior metrópole do Hemisfério Sul, o número é reflexo de uma cidade conhecida pelos seus prédios neoclássicos um tanto duvidosos, edifícios comerciais espelhados e viadutos pesados. É justamente nesse cenário, digamos, cinzento que uma nova arquitetura moderna e diferenciada tem virado uma espécie de commodity em São Paulo.

Para tornar seus empreendimentos distintos dos demais em uma megalópole onde diariamente são lançados quase dois prédios, o mercado imobiliário está recorrendo a arquitetos famosos, profissionais renomados internacionalmente.

O caso mais recente é o de uma torre residencial de alto padrão no Itaim-Bibi, na zona sul, que será lançada no fim do mês e cujo projeto foi feito pelo americano Daniel Libeskind. Esse será o primeiro prédio na América Latina desenhado por Libeskind, responsável pelas linhas elegantes do Museu Judaico de Berlim, do Museu Felix Nussbaum em Osnabrück, do Imperial War Museum em Manchester, e da Freedom Tower em Nova York.

"É a primeira parceria que fazemos com um arquiteto estrangeiro, e já queremos fazer outras", diz Luciano Amaral, diretor de Incorporação da JHSF, responsável pela obra - diga-se de passagem, é a mesma empresa que construiu o Shopping Cidade Jardim, extremamente criticado por arquitetos pelos seus traços neoclássicos. "É, o neoclássico caiu um pouco no lugar comum", explica. "Ter um arquiteto renomado vira um referencial, o que é superimportante no segmento de alto padrão. Isso encareceu o projeto em cerca de 10%, o que não é muito. É um jeito de agregar valor."

Por força das restrições de altura e aproveitamento de terreno, as linhas modernas nas fachadas dos novos edifícios da cidade têm ajudado as construtoras a subir os preços das unidades e lucrar mesmo com prédios não tão altos. Marketing, claro. Segundo a JHSF, o empreendimento de Daniel Libeskind terá apenas 14 apartamentos, com áreas entre 558 e 1.146 metros quadrados - eles custarão cerca de R$ 9 milhões, com o metro quadrado na casa dos R$ 15,5 mil. A cobertura sai pela "bobagenzinha" de R$ 20 milhões, o que fará dele um dos apartamentos mais caros da cidade - a cobertura do Cidade Jardim custou "apenas" R$ 18 milhões.

Planos. Em busca de uma arquitetura que reflita uma cidade mais moderna, empresas e entidades estão aproveitando o boom imobiliário e o aquecimento da economia para trazer a São Paulo uma nova leva de projetos com sotaque estrangeiro. A filial da empresa nova-iorquina DBB Aedas, por exemplo, já criou novos edifícios para São Paulo, como a fábrica da Valeo em São Miguel Paulista, na zona leste, e um conjunto de dez torres residenciais em Pirituba, ainda em desenvolvimento na zona oeste. Outro exemplo é a nova sede do Istituto Italiano di Cultura, em Higienópolis, no centro, criado pelo italiano Massimiliano Fuksas. Apontado como um dos maiores arquitetos vivos, ele já foi diretor da Bienal de Arquitetura de Veneza e trabalhou na reconstrução urbana de Berlim, na Alemanha.

Na beira da Marginal do Pinheiros, a WTorre também contou com a ajuda de um escritório americano para terminar a construção do ex-esqueleto da Eletropaulo. O projeto de duas torres e o Shopping JK foi feito pela empresa Arquitectonica, responsável por obras como o Aeroporto Internacional de Abu Dabi, nos Emirados Árabes Unidos.

Até o poder público tem se interessado por sobrenomes gringos - o consórcio que está desenhando a revitalização da Nova Luz tem a empresa americana Aecom Technology Corporation em seu quadro; o governo estadual contratou a grife dos arquitetos suíços Herzog & De Meuron para projetar um centro cultural na região da Luz; e a futura Operação Urbana que promete aterrar a linha do trem na Barra Funda pode contar com uma empresa estrangeira.

"Se é um projeto particular, claro que é interessante pelo marketing, vende mais, faz uma coisa diferente", diz o arquiteto e urbanista Michel Gorski, autor de um projeto de demolição do Minhocão que foi estudado pela Prefeitura, durante a gestão José Serra (PSDB), em 2005. "Mas se for público, tem de dar as mesmas condições para todos os arquitetos, seja daqui ou de fora. Discutir arquitetura é sempre bem vindo, mas a discussão ainda é periférica, sempre com casos pontuais. O que precisamos é discutir mais a cidade."

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