SP ganha 'biblioteca de cheiros' em Perdizes

Museu do perfume tem peças de 3 mil a.C. e surge da parceria entre empresa e faculdade

Valéria França, O Estado de S.Paulo

24 Setembro 2010 | 00h00

Uma casa com aromas e muita história abre hoje as portas ao público em Perdizes, na zona oeste de São Paulo. O primeiro museu do perfume da cidade reúne, num espaço de 210 m², 500 peças. Descobre-se, ali, por exemplo, que Napoleão carregava sempre dentro da bota um perfume. E por isso a água de colônia Külnisch Wasser desenvolveu um vidro com um desenho mais longilíneo, especial para acomodar melhor no calçado.

O levantamento histórico do acervo começa em 3 mil a.C. Há muitas peças originais, caso de um frasco de 5 cm - que mais parece um bibelô do que um vidro de perfume -, feito de pátina no ano 4. "Ganhei essa relíquia do embaixador de Israel há oito anos", diz o colecionador Miguel Krigsner, fundador do Boticário, empresa que investiu R$ 1,5 milhão no projeto, desenvolvido em parceria com a Faculdade Santa Marcelina.

Para montar o acervo foram recolhidas peças em cem empresas do setor - brasileiras, americanas e francesas. "Não montamos um museu, mas uma osmoteca, uma biblioteca de cheiros, que será um bom suporte para pesquisas", diz Andréia Miron, professora da Faculdade Santa Marcelina. Além das informações sobre o mundo dos aromas estarem cruzadas com a moda da época, há pelo menos cinco estações multimídia, que oferecem imagem, som e aromas.

Experiência interativa. Entre elas, a estrela da exposição é a scentys, um equipamento com tela de 32 polegadas acoplada a um "chuveiro de som" e a um dispositivo que exala fragrâncias. É nesse espaço que o visitante aprende que um perfume é construído como uma pirâmide dividida em três partes. No ápice, menos representativo, estão os aromas mais voláteis. É o cheiro que o consumidor sente primeiro, mas que some rapidamente no ar. E dá lugar ao aroma responsável pela personalidade do perfume, que vem a ser o coração da pirâmide, a essência que se percebe quando o líquido seca na pele. Na base estão os fixadores, elementos indispensáveis para o perfume continuar na pele horas depois de aplicado. Na entrada do Espaço Perfume Arte + Histórica, nome dado ao museu, há uma estação divertida que solta aromas cítricos, florais e amadeirados. Basta apertar um botão para experimentar. Além de atrair até mesmo a curiosidade de crianças, o espaço tem piso tátil, legendas em braile e audioguia em inglês e espanhol.

Dobradinha. A inauguração do local, montado num sobrado na frente da Faculdade Santa Marcelina, faz parte de uma estratégia da instituição de investir nos profissionais do setor. "Somos pioneiros na formação em Moda, e o perfume hoje é muito importante", diz Andréia. "Segura e alavanca a indústria da moda. Faltam profissionais especializados no mercado." Em 2011, a faculdade abre um curso sobre o tema. "O objetivo não é formar perfumistas, mas produzir conhecimento, o que começa na elaboração e vai até o pós-venda do produto." Os interessados terão de passar por uma seleção que começa em novembro.

Em expansão

R$ 20 bi/ano

é quanto movimenta a indústria do perfume

2º lugar

é a posição do País no ranking de consumo (atrás só dos EUA)

HISTÓRIA EM FRASCOS

Ano 4

Parece um enfeite, mas é um vidro de pátina de perfume, descoberto em escavações em Jerusalém. É uma das relíquias que o museu reuniu com a ajuda de colecionadores e empresas.

1861

Eua Impériale, da Guerlain, produzido em homenagem à espanhola Eugênia de Montijo como presente de seu casamento com Napoleão Bonaparte. No frasco, o brasão do imperador.

1920

Um frasco de lança-perfume, muito usado nos bailes de carnaval do começo do século passado. Ao lado, há uma propaganda da época, recurso usado para contextualizar as peças.

1979

Acqua Fresca era uma espécie de lavanda nacional. Lançada pelo Boticário, virou febre entre as adolescentes da década de 1980, quando o Brasil estava fechado para importações.

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