SP exporta know-how social

Experiência de religiosos com moradores de rua servirá ao país devastado por terremoto

José Maria Mayrink, O Estado de S.Paulo

17 de julho de 2010 | 00h00

São Paulo está exportando para o Haiti sua experiência pastoral com moradores de rua. Criada há cinco anos pelo padre italiano Gianpietro Carraro, com a bênção do então arcebispo, cardeal d. Cláudio Hummes, a Missão Belém, uma associação de leigos consagrados ao serviço dos pobres, encerrou na sexta-feira a missa de seu reconhecimento oficial pela Igreja com uma cerimônia de envio de cinco missionários para Porto Príncipe.

Ajoelhados aos pés do atual arcebispo, d. Odilo Scherer, Marcelo Conceição, Paulo Emiliano, Cacilda da Silva Leste, Renata Lopes e Taís Oliveira Santos prometeram levar a mensagem do Evangelho e a solidariedade dos católicos aos moradores de Cité Soleil, o bairro mais violento da capital do Haiti. Eles estão estudando creole, a língua dos haitianos, para poder assumir seu posto em outubro.

"Não tenho ideia de como fazer, mas espero que Deus me inspire para ajudar o Haiti", disse Renata, de 26 anos, que, formada em Pedagogia, parte com o objetivo de abrir uma creche na favela. Seus companheiros, todos com passagem pela rua - como moradores ou convivendo com eles -, vão trabalhar no que for preciso, tentando levantar a esperança de uma comunidade que, se já era pobre, ficou ainda mais desamparada após o terremoto de 12 de janeiro.

Padre Gianpietro passou três meses em Porto Príncipe para preparar a chegada de seus missionários. "Escolhemos um canto de Cité Soleil, na região mais pobre de Porto Príncipe, para armar nossa barraca em cima de um lixão, onde umas 150 mil pessoas se amontoam na maior miséria." Os membros e os colaboradores de sua comunidade lotaram a catedral de São Paulo, ontem, quando o padre falou do sofrimento do Haiti.

"São os pobres que se consagram aos pobres", disse d. Odilo, ao anunciar o reconhecimento canônico, pelo qual a Igreja adota como sua a obra de padre Gianpietro. "É o reconhecimento de que a Igreja está fazendo aqui o que deveria fazer pelos pobres", acrescentou o cardeal.

Programa. A Missão Belém tem 68 integrantes trabalhando em 80 casas, espalhadas por 12 dioceses de quatro países. Além do Brasil e do Haiti, os missionários mantêm comunidades na Bósnia e na Itália. "Quando vim para São Paulo, onde dirigi três paróquias, eu era um padre de sapatos engraxados, mas agora ando de pés no chão", disse Gianpietro, de 47 anos, 16 de Brasil.

Padre Gianpietro atribui à Providência Divina "o milagre da multiplicação dos pães" que garante o sustento de sua obra. "Consumimos 4 toneladas de arroz e uns 1.500 quilos de feijão por mês, que chegam como doações não se sabe de quem, pois não temos convênios com o governo." Quando parece que vai faltar comida, doadores anônimos ligam (11-2694-2746) para dizer que querem ajudar.

Mais de 8 de mil pessoas já passaram pela Missão Belém, que atende hoje a cerca de mil ex-moradores de rua. Muitos que se abrigam numa das casas em busca de comida, remédio, cama e agasalho, acabam ficando. Viram coordenadores dos alojamentos e até missionários. É o caso de Paulo Emiliano, um dos voluntários que estão indo para o Haiti. "Nos últimos cinco dias, estamos em missão, tiramos mais 70 moradores da rua", disse o padre Gianpietro.

Os missionários usam chinelos ou andam descalços, sentam-se nas calçadas e misturam-se aos drogados e doentes sob os viadutos. A Missão Belém atua em todo o centro da cidade, especialmente nos pontos mais perigosos, como a cracolândia, onde são recebidos como amigos.

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