SP em horário nobre, com Sílvio de Abreu

SÃO PAULO - Se esse cinema de rua no centro já tivesse virado igreja evangélica em 1940, Silvio de Abreu não seria novelista - e São Paulo não teria aparecido tanto no horário nobre. O escritor paulistano nasceu na Liberdade e morava próximo do Glicério quando, com 5 anos, seus pais o levaram pela primeira vez ao cinema. O local era o antigo Cine Metro, na Avenida São João, região que nos anos 1950 concentrava boa parte dos cinemas de rua da capital. De todos eles, restam apenas os Cines Olido e Marabá - muitos viraram salas pornô, outros igrejas evangélicas.

Edison Veiga e Rodrigo Burgarelli , O Estado de S.Paulo

24 de janeiro de 2012 | 21h30

Esse último foi o destino do Cine Metro, fechado em 1997 após ser comprado pela Igreja Internacional da Graça de Deus. Silvio de Abreu foi fotografado na frente do cinema em 1992, justamente porque ali era um dos seus locais favoritos em São Paulo. "Quando vim aqui pela primeira vez, isso era um lugar lindíssimo. Imagina o impacto que não era para uma criança pobre entrar aqui e ver toda aquela fantasia em uma tela enorme. Nesse momento, percebi que era isso que eu queria, trabalhar com arte", conta.

Ele passou quase toda sua infância e adolescência no centro da cidade. Além de morar por ali, foi nessa região que o novelista de 69 anos começou sua vida profissional. "Com 14, eu já trabalhava como office-boy em uma agência de publicidade no Largo do Arouche. Depois, mudei de empresa e fui para a Alameda Nothmann", lembra.

Abreu ficou lá até que, aos 15, conseguiu seu primeiro emprego na área da arte: virou ajudante em uma loja de discos na Rua São Bento. Desde então, sua veia artística não deu trégua. Ele foi autor principal em 14 novelas exibidas pela Rede Globo e pelo SBT - 13 tiveram a capital paulista como cenário. "Só uma, a Pecado Rasgado (1978), se passava no Rio. Foi justamente a que menos me agradou", afirma.

Mudança. O centro, diz, esteve mais presente até o início dos anos 1990, em novelas como Cambalacho (1986) e Rainha da Sucata (1990). Depois, a degradação da região levou as tramas para áreas atualmente mais nobres, como Morumbi e Itaim.

Abreu conta que, por causa disso, praticamente não vai ao centro hoje em dia. "Só vim porque você me chamou, porque olha como isso está. Quando eu era criança, isso era um dos locais mais chiques da cidade, todo mundo se vestia bem para vir para a São João. Agora está tudo sujo, decadente, pichado, com mendigos por todo lado, que não têm para onde ir."

Hobbies. Morador dos Jardins, Silvio afirma que o que mais gosta em São Paulo é a facilidade de encontrar tudo. Ir ao cinema ainda está entre seus hobbies favoritos. "Não acho cinema de shopping ruim, acho que é até uma evolução natural", comenta. Como todo paulistano, ele odeia os buracos nas ruas, arranca os cabelos quando fica preso no trânsito, adora o Ibirapuera e torce para que o centro volte a ter o glamour de sua época de criança.

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