Estadão
Andar distraído em vias com pouca iluminação e com o celular na mão é o tipo de comportamento que tem facilitado a ação de criminosos, particularmente no centro da capital. Lojistas relatam a repetição de ocorrências nesse mesmo padrão. Até mesmo ouvir música com fones de ouvido e o aparelho dentro da bolsa ou mochila representa um risco que deve ser evitado nessas situações Estadão

SP bate recorde de roubos, com 896 casos por dia; 63% envolvem celulares

Metade dos crimes foi contra pedestres, muitos com criminosos em motos ou bicicletas; a área do 78º DP (Jardins) é a 3ª com maior aumento dos assaltos

Bruno Ribeiro e Marco Antônio Carvalho, O Estado de S. Paulo

11 de outubro de 2016 | 05h00

O Estado de São Paulo registrou até agosto de 2016 52 casos a mais de roubo por dia em comparação ao mesmo período do ano passado. A média mensal de assaltos neste ano (26.889) é a maior de toda a série histórica da Secretaria da Segurança Pública, iniciada em 1996, ultrapassando o recorde anterior de 2014. Metade dos crimes foi contra pedestres, muitos deles com criminosos em motos ou bicicletas, e os principais objetos roubados são celulares. 

Especialistas ponderam a dificuldade de se investigar esse tipo de ocorrência, pedem um esforço para criação de alternativas de enfrentamento e minimizam o argumento de que a crise econômica no País seja a responsável pelo crescimento da criminalidade, justificativa usada pela gestão estadual. A pasta da Segurança disse readequar o policiamento de acordo com a análise das estatísticas. 

Nas ruas do centro da capital, as diversas câmeras de segurança captam diariamente a ação de batedores de carteira e de adolescentes que, de bicicleta, furtam e roubam lojistas e clientes do comércio local. Em comum, as imagens mostram a vítima desatenta mexendo no telefone celular enquanto os criminosos preparam o bote, agindo em poucos segundos para levar os bens.

"Eu estava andando com o celular na bolsa, só com os fones de ouvido para fora, quando um cara chegou puxando os fios com tudo. Eu, na hora, até corri atrás dele, o que é errado, mas não pensei. Mas não consegui pegar o cara. Meu celular começou a vibrar na bolsa, porque alguém estava me ligando, e eu vi que ele não tinha levado", contou a comerciária Chaiene Lima, de 23 anos. 

O delegado seccional da região central da cidade, Marco Antonio Pereira, afirmou não haver diferença significativa no perfil das vítimas de roubo nas regiões da cidade. O que muda, disse ele, é o perfil do ladrão. "Nessas regiões de maior movimento de transeuntes, como o centro velho e a Avenida Paulista, o criminoso é, em geral, alguém mais amador, que se aproveita da oportunidade, quando vê um celular ou valores fáceis de serem roubados", explicou.

"Mas em regiões de maior poder aquisitivo, em que a vítima pode estar de carro, o criminoso já é mais profissional, se podemos chamar assim. É alguém que está armado, que pode entrar em uma casa, roubar um carro. É alguém cuja prisão exige maior investigação. Mas os dois tipos de ladrões têm sido presos", afirmou o delegado.

Dados da Secretaria da Segurança mostram que seis em cada dez ocorrências terminam com o celular sendo levado da vítima, enquanto que em 49% das vezes documentos estão entre os itens perdidos; dinheiro só foi roubado em cerca de 11% das ocorrências neste ano. Comércios e casas são os alvos em 6% e 3% das vezes, respectivamente. "Outra coisa é que, em locais como os Jardins, as pessoas carregam consigo mais valores do que em locais como o Glicério", continuou o delegado Pereira. "O que ocorre é que, nos dois perfis, os valores são levados pelos criminosos."

A área do 78.º DP (Jardins) é a terceira com maior aumento dos assaltos em toda a cidade, saindo de 1.126 registros de janeiro a agosto de 2015 para 1.446 no mesmo período de 2016. A explicação para o aumento pode estar na Avenida Paulista. Desde outubro do ano passado, a Prefeitura decidiu fechar o tráfego de carros aos domingos para lazer na via, atraindo cada vez mais pessoas. "Há consideravelmente mais pessoas circulando na avenida e, no domingo, elas estão mais vulneráveis, distraídas brincando com crianças, por exemplo. Quando notam, já perderam", disse o presidente do Conselho de Segurança (Conseg) do bairro, Pedro Matizonkas Neto.

O delegado Pereira, que já dirigiu o Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP), de Prevenção e Repressão ao Narcotráfico (Denarc), e do Departamento de Polícia Judiciária da Capital (Decap), afirmou ainda que o momento de crescimento de roubos de celulares se dá pela natureza do produto, que sempre está à mão. "É um objeto que está à mostra, as pessoas ficam com ele na mão, o que facilita a ação de quem está atrás de uma oportunidade." 

Segundo o vice-presidente do Sindicato dos Corretores de Seguros de São Paulo, Boris Ber, está havendo um aumento considerável na demanda por seguros para celulares, smartphones e tablets. "O alto valor desses equipamentos, muitas vezes aliado à dívida contraída para sua aquisição, o crescimento nos índices de furtos e roubos, e risco de danos físicos como quedas, são os fatores que determinam a procura pelo seguro", disse.

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Após assaltos, jovem decide deixar a capital e voltar para o Ceará

Operador de máquinas de 26 anos vive em São Mateus, na zona leste, região com o maior aumento no número de registros

Bruno Ribeiro e Marco Antônio Carvalho, O Estado de S. Paulo

11 de outubro de 2016 | 05h00

A violência fez o operador de máquinas Márcio Pereira da Silva, de 26 anos, tomar uma decisão: no fim do mês, vai deixar São Paulo, onde vive há cinco anos, para retornar à cidade natal de Acopiara, município de 50 mil habitantes na caatinga cearense. "Emprego é mais difícil, mas pelo menos lá não sou assaltado com tanta frequência", disse o jovem em frente ao 49.º Distrito Policial, em São Mateus, zona leste da capital, região em que houve maior aumento no número de roubos do ano passado para cá; em 2016, foram 2.334 casos, dos quais dois foram contra Silva.

O mais recente aconteceu em setembro, quando estava caminhando na Rua Professor Pedro Antônio Pimentel e foi abordado por uma dupla em uma moto. Voltava do trabalho para casa e falava no celular com a noiva. O aparelho foi levado. "Apontaram a arma e pediram o celular. Saíram falando para eu não olhar nem para trás e só seguir andando", lembra o jovem. Na semana passada, tentava corrigir o número do IMEI registrado no boletim de ocorrência para que o seguro contratado pagasse o valor do aparelho.

A contratação do serviço ocorreu após o primeiro roubo em que haviam levado outro aparelho de Silva. Pagando R$ 17,99 por mês, o operador tentava amenizar o prejuízo em caso de uma nova ocorrência. "Da outra vez foi ainda mais grave, colocaram o cano da arma na minha nuca e saíram em um carro. Há dois anos já haviam levado uma moto minha. Não dá mais para ficar aqui. A gente luta tanto para conseguir e eles levam tão facilmente." 

Policiais que atuam na região confirmaram ao Estado que o modo de atuação criminosa costuma se repetir com ocorrências de duplas em motos ou bicicletas cujas principais vítimas são pedestres em horários das 6h às 8h e das 19h às 22h. Os agentes veem relação entre a quantidade recente de invasões de terrenos abandonados na área com o aumento da criminalidade.

Outro destaque negativo da capital também vem da zona leste, na área do 50º DP, no Itaim Paulista. Lá, o aumento dos crimes dessa natureza foi de 29% na comparação com o último ano. A polícia acredita que a proximidade com cidades da região metropolitana que têm maior número de casos e o fato de conviverem com um intenso fluxo diário de pessoas contribua para o acirramento da violência. 

A promotora de vendas Miriam Andrade, de 30 anos, disse evitar sair tarde do trabalho por acreditar que esperar no ponto de ônibus a torna presa fácil para os criminosos. "Depois das 19h já é perigoso. A gente sabe que se ficar vacilando no ponto, eles vão passar e te roubar", disse enquanto aguardava o transporte no bairro por volta das 15h na quarta-feira da semana passada. 

O presidente do Conselho de Segurança (Conseg) do Itaim Paulista, o advogado Dirceu Aparecido Ruiz, disse estar preparando requerimentos a ser direcionados à Secretaria da Segurança e ao governo do Estado pedindo reforço no policiamento da região. "A incidência é muito maior do que a registrada porque as pessoas acabam não indo à delegacia. A polícia aqui tem a maior boa vontade, mas acaba não tendo força para resolver. É necessário uma decisão política de enviar reforço em efetivo e viaturas", disse Ruiz.

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Realidade pede novas ações, dizem especialistas

Para o diretor-executivo do Instituto Sou da Paz, é necessária uma ação focada a partir da análise dos dados de segurança pública

Bruno Ribeiro e Marco Antônio Carvalho, O Estado de S. Paulo

11 de outubro de 2016 | 05h00

Com o crime focado em aparelhos celulares, especialistas em segurança apontaram a necessidade de reformulação de atuação da polícia para enfrentamento específico a essa realidade. No ano passado, a Secretaria passou a registrar o IMEI - número de identificação único de cada aparelho - no boletim de ocorrência, como forma de bloquear os equipamentos roubados, impedindo a revenda no mercado ilegal. 

"A questão do IMEI foi algo interessante, mas percebemos agora que não teve a efetividade necessária. Pensar um pouco fora da caixa e buscar soluções para essa dinâmica criminal é algo a ser feito para reduzir os indicadores", avaliou o diretor-executivo do Instituto Sou da Paz, Ivan Marques.

Ele acredita que muitas ocorrências são de "oportunidade", onde o criminoso busca vítimas desatentas passeando em lugares sem iluminação para cometer o assalto. Contra isso, Marques pediu uma ação focada a partir da análise dos dados. "A melhor estratégia é a baseada em evidências, nas manchas criminais, o que a polícia já faz. Resta saber se de fato tanto a PM vem trabalhando nessa parte ostensiva a partir das evidências quanto a Polícia Civil tem se concentrado em atacar a raiz do problema", disse. "Se o caso é de celular, tem de ver como está a receptação do comércio que vai revender o produto do roubo". 

Promotor de Justiça e professor de direito penal na Universidade Mackenzie, Fabio Ramazzini Bechara pediu que se olhe para o problema além do viés policial. "A polícia acaba sendo o parachoque, quando na verdade não é correto atribuir a ela toda a responsabilidade. É necessário olhar para a própria legislação, para as condições do sistema prisional e a realidade socioeconômica de cada localidade", disse.

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Policiamento está sendo readequado, diz Segurança

Sobre os roubos de celulares, a pasta disse estar adotando medidas para combatê-los, como a inclusão do IMEI no registro da ocorrência

Bruno Ribeiro e Marco Antônio Carvalho, O Estado de S. Paulo

11 de outubro de 2016 | 05h00

A Secretaria da Segurança Pública informou ao Estado que o policiamento ostensivo e preventivo na região metropolitana, área em que os roubos mais aumentaram, está sendo readequado para coibir esse tipo de crime. "A Polícia Militar atua em todo o Estado de São Paulo por meio de análise dos índices criminais, planejamento estratégico dinâmico e emprego do seu efetivo operacional distribuído em diversos Programas de Policiamento", declarou.

A pasta disse que as polícias estão atentas aos índices criminais e realizam operações focadas em crimes contra o patrimônio. "O trabalho em conjunto das polícias resultou na prisão em flagrante de 31.131 pessoas de janeiro a agosto na capital, aumento de 18,9% em relação ao mesmo período de 2015", declarou. A Secretaria ponderou que o trabalho permitiu que nos primeiros oito meses de 2016, o total de roubos na capital, por exemplo, fosse 3,8% menor do que em 2014.

Sobre os roubos de celulares, a administração disse estar adotando medidas para combatê-los, como a inclusão do IMEI no registro da ocorrência. A medida visa a reduzir essa prática, segundo a pasta, e facilitar a localização dos objetos, além de inibir a revenda dos aparelhos. Em 2016, a PM apreendeu 15.084 celulares furtados ou roubados no Estado. 

No fim de setembro, durante a divulgação mensal das estatísticas criminais, o secretário da segurança, Mágino Alves Barbosa Filho, disse enxergar uma relação entre a crise econômica e o aumento dos casos. "O celular sempre foi um objeto caro e fácil de ser levado. O que pode estar acontecendo é que pessoas que não praticavam esses delitos passaram a cometê-lo", disse.

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