‘Sou semianalfabeto. Vivo da rua. Não sei o que fazer’

Com a revogação das autorizações, os permissionários da 25 de Março estão dispostos a lutar na Justiça contra a medida

Adriana Ferraz, Artur Rodrigues e Diego Zanchetta,

21 de maio de 2012 | 22h36

SÃO PAULO - Faz 30 anos que o ambulante Eliseu Alves da Silva, de 60, vende bijuterias no cruzamento da Ladeira Porto Geral com a Rua 25 de Março, no centro de São Paulo. Cadeirante, criou oito filhos com o faturamento da barraca. Daqui a um mês, não sabe o que fará para sobreviver. "O prefeito (Gilberto) Kassab disse que não mexeria com os deficientes físicos. Não cumpriu a promessa e ainda nos deixou na mão. Em um mês, não haverá nenhum shopping popular pronto", disse.

A publicação no sábado da cassação coletiva dos Termos de Permissão de Uso (TPUs) pegou os camelôs de surpresa. A maioria já pagou a taxa anual exigida pela Prefeitura para renovação da licença, de R$ 925,96, e, por isso, acreditava que o ano de trabalho estava garantido.

Com a revogação das autorizações, os permissionários da 25 de Março estão dispostos a lutar na Justiça contra a medida. O grupo é formado por cerca de 70 pessoas, que não aceita a transferência para bolsões de comércio popular. "Querem nos mandar para São Miguel Paulista, mas o que vamos fazer lá? É muito longe e temos dificuldades para nos locomover", reclama Jaime de Oliveira, de 67 anos, que tem paralisia infantil.

Os ambulantes afirmam que só conseguem vender suas mercadorias em vias públicas com grande concentração de pedestres. É por isso que locais como a 25 de Março, a Praça da Sé e o bairro do Brás são tão disputados. Atualmente, o faturamento médio das barracas gira em torno de R$ 400 a R$ 600 por dia.

"E os pontos fechados têm muito mais problemas. A Feira da Madrugada é exemplo. Não oferece estrutura nenhuma para as pessoas trabalharem. E banheiro para deficiente, acha que tem lá?", reclama Antonio Miranda de Oliveira, de 65 anos. "Vivo da rua. Sou semianalfabeto. Não sei o que vou fazer."

Adir Ribeiro do Amaral, de 65 anos, é um dos mais antigos na região. "Meu TPU tem 46 anos e está dentro da lei. O prefeito não pode exterminar o comércio ambulante desse jeito. Pagamos taxas, temos direito."

Para quem compra na rua mais popular de São Paulo, a medida é considerada desnecessária. "Do jeito que estão, os ambulantes não atrapalham o pedestre. Trabalho com festas e venho aqui de três a quatro vezes por semana. Não imagino como vai ficar a rua sem as barracas, que têm preços mais em conta e muitas opções", diz Josélia Heringer, de 53 anos.

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