Arquivo pessoal
Marina Kohler Harkot Arquivo pessoal

Marina Kohler Harkot Arquivo pessoal

Sorridente e brilhante, Marina Harkot foi vítima dos problemas que denunciava

Pesquisadora e cicloativista foi morta ao ser atropelada em uma avenida de São Paulo; motorista fugiu do local

Priscila Mengue , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Marina Kohler Harkot Arquivo pessoal

A socióloga Marina Kohler Harkot, de 28 anos, era uma pesquisadora brilhante e de sorriso fácil e sempre presente. Deixou irmãos, pais, companheiro, colegas de trabalho e muitos amigos que lamentaram um futuro cheio de possibilidades interrompido por mais um caso de violência no trânsito no Brasil. 

Marina foi vítima de um dos problemas sociais que denunciava e pesquisava no doutorado: como o medo impacta as experiências territoriais de minorias na cidade. Pessoas próximas acreditam que ela trafegava em uma das pistas de uma avenida da zona oeste paulistana - o que é previsto no Código de Trânsito - para evitar ser vítima de assaltos frequentemente relatados por mulheres na ciclovia da região.

O motorista que atropelou a pesquisadora não prestou socorro e fugiu do local do crime. O principal suspeito de conduzir o veículo é José Maria da Costa Júnior, que se apresentou à polícia na tarde desta terça-feira, 10.

Uma missa em homenagem à jovem será celebrada às 17 horas desta sexta-feira, 13, na Igreja Nossa Senhora da Glória, no Rio, seguida de uma pedalada, com saída do Largo do Machado.

A jovem concluiu a graduação e o mestrado na Universidade de São Paulo (USP), instituição em que era pesquisadora colaboradora, pelo LabCidade, e cursava o doutorado, ambos na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAUUSP). Foi coordenadora do coletivo Ciclocidade, integrante do Conselho Municipal de Transporte e Trânsito de São Paulo, no segmento “bicicleta”, e consultora em planejamento urbano, especialmente no desenvolvimento de Planos Diretores e políticas de inclusão das mulheres.

Cicloativista, havia passado a morar com o companheiro há pouco tempo em um apartamento da região central de São Paulo e adorava gatos. Falava cinco idiomas, foi escoteira na adolescência, morou na Alemanha, na França e na Suíça e se considerava “carioca de nascimento e paulistana de coração”.

Aproximou-se da bicicleta na adolescência, em um breve período em que morou no litoral, momento em que descreveu ter descoberto uma nova forma de liberdade. “Uma vez que a gente começa a pedalar, a gente não consegue conceber outro jeito de se deslocar”, declarou em um fórum temático que participou virtualmente como convidada em 2020.

Em texto de anos atrás, comentava que, ao pedalar, “percebeu que o jeito como as cidades foram construídas tem tudo a ver com questões enfrentadas pelo gênero feminino nesse ambiente”. “Não cansa de tentar incentivar amigas, conhecidas e – sobretudo – desconhecidas a experimentarem a liberdade da bicicleta”, descrevia-se.

No funeral, realizado na noite de domingo, a mãe, Maria Claudia Kohler, foi até à sacada e falou a ativistas que faziam uma homenagem. “Ela estava construindo uma casa, com um marido, um amor, uma vida futura, estudando, fazendo doutorado, viajada. Daí acontece essas coisas que a gente fica demolida”, desabafou.

Tia de Marina, a fotógrafa Alice Kohler lembra que a sobrinha sempre soube o que quis, era engraçada e espontânea. Costumava se gabar para as outras crianças porque tinha uma biblioteca em casa, “comia os livros” e era sempre a melhor aluna da classe. “Foi uma intelectual desde cedo”, relata a familiar. 

Os grandes óculos que costuma utilizar eram comprados em brechós e feirinhas. Não era apegada a marcas e ao consumo. “Por onde ela passava, dava luz. Ela sabia o que queria, não veio por acaso."

Pelo jeito “danado” e até meio brabo na infância, era chamada de “Marruá” pelo avô materna. Filha de uma bióloga ambientalista e um oceanógrafo, passou grande parte da vida no meio da natureza.

Também tinha interesses variados, e até fez aulas de kung fu na adolescência. Na pandemia, aprimorou os dotes culinários ao fazer pães com fermentação natural.

Se perguntada se não estava na hora de investir em um rumo para a carreira que desse maior retorno financeiro, dizia que não se interessava por dinheiro, mas em resolver problemas.

Por colegas e amigos, é descrita como companheira, doce, cheia de vida, sensível e sorridente. Era uma pesquisadora exemplar e uma mulher feminista, engajada pela construção de cidades mais humanas e igualitárias. 

“Marina brilhava onde chegasse. Era doce, mas ao mesmo tempo potente. Ela conseguia se colocar e se fazer ser ouvida em qualquer ambiente”, lembra a social media Maysa Lira, de 24 anos, amiga da jovem.  “Já estive presente em reuniões ‘enérgicas’ demais, e Marina estava sempre calma e didática”, exemplifica.

Ela gostava muito de carnaval. Em São Paulo, frequentou desfiles do bloco A Espetacular Charanga do França. Quando foi ao Recife, insistiu em aprender a dançar frevo. Não ganhou muito jeito para o ritmo, mas tentou entre gargalhadas suas e de amigos. Por lá, ainda dividiu a admiração pelas músicas de Reginaldo Rossi.

Há três anos, lamentou outro cicloativista passar por uma situação semelhante à que a vitimizou, com a morte de Raul Aragão, em Brasília. “A gente chora porque é a mesma história. Apesar de Mari ser muito importante para gente, todo dia morrem ciclistas no trânsito. São pessoas muito importantes para alguém, mas que passam invisíveis", lamenta Maysa.

Com mais esse caso, há o temor de a situação não mudar. “Ontem (domingo) recebi uma ligação de uma amiga de Mari em prantos, me pedindo pra ter cuidado na rua, porque ela não queria que nenhum dos nossos fosse os próximos”, relata. “Eu nunca ouvi que um ciclista atropelou e matou alguém. A minha amiga estava apenas pedalando e foi atingida por mais de uma tonelada. A gente só quer sair e voltar vivo, sabe? É desesperador.”

Especialista em Políticas de Baixo Impacto, Walter De Simoni, de 34 anos, lembra que a jovem sempre buscava unir o conhecimento e a pesquisa acadêmica com o mundo real, aproximando realidades às vezes vistas como paralelas. "Era uma pessoa que sempre fazia questão de trabalhar a inclusão e intersecção de qualquer temática que tocava, com gênero, raça, classe social. De uma maneira muito profunda." 

“A gente perde muito com a voz dela sendo apagada de uma forma tão cruel, tão trágica, tão cedo, quando estava só no começo de contribuir com essas mudanças tão necessárias”, ressalta. “Espero que a cidade que ela sempre sonhou a gente consiga transformar em realidade.”

Contribuição acadêmica exemplar

Orientadora de Marina no mestrado e no doutorado, Paula Santoro, coordenadora do LabCidade e professora da FAUUSP, lembra que a aluna se tornou uma referência na área por ter reunido dados de forma inovadora sobre gênero e mobilidade por bicicleta. Juntas, elas criaram uma disciplina para alunos da graduação, de Cidade, Gênero e Interseccionalidade, e tinham planos para ampliar projetos para 2021, com discussões sobre territórios negros, de prostituição e da população LGBT. 

“A cidade não nos dá segurança. No caso da Marina, matou ela. O comportamento desse motorista, que fugiu, é o comportamento da nossa sociedade. É o ódio potencializado que ela queria mudar”, descreve. “Ela não pode ser mais uma ciclista morta, mais uma bicicleta branca num lugar público de São Paulo. É preciso convencer os nossos governantes para ter política de educação nos espaços públicos, desde a escola, para que a gente possa compartilhar o espaço”, destaca.

A professora ainda cita um dos aspectos percebidos por Marina no mestrado. “As ciclovias não são seguras para as mulheres. E não é a questão de ter buraco, é o medo de assédio, de estupro, que nos faz desviar o caminho e não ir pra alguns lugares”, reitera. “A gente está em luto por ela, mas está na luta dela agora. Acho que vai nos dar força para transformar. Vai ter que transformar.”

Também coordenadora do LabCidade e professora da FAUUSP, Raquel Rolnik defende que a morte de Marina não foi um acidente, mas “uma crônica da morte anunciada”. “Ela reitera um modelo de cidade e de política pública de circulação que é um modelo que promove a morte. E esse modelo promove a morte não apenas por ser carrocêntrico, baseado na ideia de que a circulação sob pneus tem que dominar o processo de circulação na cidade, mas em um modelo de uso do espaço público destinado a aumentar a velocidade dos automóveis”, critica.

“A morte da Marina é a expressão de um urbanismo que promove a morte, que está muito preocupado com a velocidade de circulação”, lamenta. Para mudar essa situação, ela diz serem necessárias medidas em todas as esferas públicas, como de diminuição da velocidade de circulação, penas mais severas para motoristas infratores, melhorias na infraestrutura urbana e na iluminação pública. 

Instituições lamentam morte de Marina

A morte da socióloga foi lamentada por instituições diversas. Em nota, o LabCidade, disse que se trata de uma “perda inestimável” e que “não pode ser vão”. “Marina foi morta enquanto lutava. Pois sua luta não se separava da sua vida, do seu corpo em movimento de bicicleta pela cidade. E perdemos, junto com a ativista, uma companheira de vida, da vida que ela nos ajudava a enfrentar com novos olhos.”

Já a FAUUSP destacou ter “certeza de que ela sempre será um exemplo para toda nossa comunidade uspiana e que suas lutas permanecem compartilhadas por todos nós, mantendo viva sua presença”.

Marina também foi estagiária na Rede de Ação Política pela Sustentabilidade (Raps), que lamentou o caso em nota. "Marina deu imensa contribuição para os estudos na área de gênero e mobilidade urbana, além de ter sido uma profissional competente e dedicada.”

O Instituto Clima e Sociedade escreveu que o “falecimento de Marina não pode ser em vão, e nossa melhor forma de homenageá-la é reafirmar o compromisso com a luta por uma cidade que respeite seus ciclistas e pedestres, causa defendida com tanto amor por ela”.

Além dele, a União de Ciclistas do Brasil destacou que o ativismo da jovem “nos ofereceu uma presença e legados incríveis” e seu empenho, construção e dedicação ao cicloativismo paulista e nacional, sua contribuição é histórica e importante, sua triste partida não será em vão ou esquecida”.

O Observatório do Clima, do qual Marina participou pelo grupo de trabalho Gênero e Clima, também se manifestou. “Era atuante no movimento cicloativista, na qual se dedicava à pauta da mobilidade urbana sustentável e ao debate acerca das mudanças climáticas nas cidades através de um olhar de gênero”, descreveu, além de manifestar um “desejo profundo de que sua morte não fique impune”.

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Estudos de ciclista morta explicam por que mulheres andam menos de bicicleta

Marina Kohler Harkot abordou em mestrado como mulheres são minoria entre ciclistas, embora a bicicleta tenha uma forte ligação com feminismo

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2020 | 10h07

A socióloga Marina Kohler Harkot, que morreu atropelada no domingo, defendia mudanças na mobilidade urbana. Entre elas estava o uso da bicicleta como política pública de educação, com a prática incentivada desde a infância, o planejamento da infraestrutura cicloviária que considere os deslocamentos cotidianos dentro dos bairros (em direção a serviços, como educação e alimentação, por exemplo) e o incentivo à implementação de bicicletários em locais como estações de transporte, equipamentos públicos e áreas comerciais.

Em seu mestrado, com o título “A bicicleta e as mulheres: Mobilidade ativa, gênero e desigualdades socioterritoriais em São Paulo”, abordou como as mulheres são minoria entre os ciclistas, embora a bicicleta tenha uma forte ligação com o feminismo, desde o movimento sufragista norte-americano. Com o estudo, concluiu que a menor inclusão feminina se deve a questões socioculturais e ao machismo estrutural, além dos problemas de infraestrutura e mobilidade.

A pesquisadora de 28 anos, que foi atropelada por um carro enquanto pedalava na avenida Paulo VI, em São Paulo, defendia a ideia de que cidades inclusivas para as mulheres ciclistas são inclusivas para todos os ciclistas. "Qual ciclista não gosta de pedalar se sentindo seguro e respeitado pelos veículos a sua volta?”, questionava-se em uma apresentação realizada em um evento dois anos atrás.

"São muitos os fatores que podem ajudar a explicar o porquê de haver menos mulheres pedalando. Há pesquisas que indicam que essa diferença pode vir desde a infância, quando as meninas são desincentivadas a praticar atividades físicas ‘arriscadas’, tal como pedalar, ao contrário dos meninos. Ou, ainda, a relação entre mulheres e o trabalho doméstico, que determinou muito de como elas usam e ocupam a cidade. O importante é: explicar isso não é tarefa fácil e depende (muito!) do contexto no qual as mulheres, ciclistas ou não, estão inseridas”, explicou.

Dois exemplos de boas práticas que citava era de um projeto social na Holanda, o Mama Agatha, que ensina mulheres imigrantes a andar de bicicleta, como forma de auxílio para se integrar à sociedade local. Outro é do estado indiano de Bihar, que apostou no uso da bicicleta como solução para diminuir a evasão escolar.

2.110 ciclistas morreram no Estado de SP desde 2015

Dados da plataforma Infosiga SP, do Governo do Estado, apontam que 2.110 ciclistas morreram no trânsito paulista entre o primeiro dia de janeiro de 2015 e o último dia de setembro de 2020. Na capital, esse número foi de 173 óbitos.

Somente neste ano, até setembro, 297 pessoas morreram ao andar de bicicleta no Estado, o que representa um pequeno aumento em relação ao mesmo período de 2019, com 295 óbitos. 

O maior registro de casos neste ano é no primeiro trimestre, que não enfrentou os efeitos da quarentena, com um acumulado de 113 mortes em bicicleta, o mais alto registrado para esse intervalo no levantamento histórico, iniciado em 2015.

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