Hélvio Romero/Estadão
Hélvio Romero/Estadão

Soninha defende derivado da maconha para atenuar sofrimento de usuários de crack

Em sua apresentação como futura secretária de Desenvolvimento Social, a vereadora eleita afirmou que é favorável à política de redução de danos

Adriana Ferraz e Daniel Weterman, O Estado de S.Paulo

10 Novembro 2016 | 13h49
Atualizado 10 Novembro 2016 | 23h11

SÃO PAULO - Futura secretária municipal de Desenvolvimento Social, Soninha Francine declarou nesta quinta-feira, 10, ser favorável à adoção de uma política que considere o uso de derivados da maconha como forma de atenuar o sofrimento de usuários de crack em abstinência. A recém-eleita vereadora pelo PPS disse que vai levar a discussão ao prefeito eleito João Doria (PSDB) e a Wilson Pollara, escolhido pelo tucano para comandar a Saúde. 

“Dentro de um projeto de redução de danos, o que defendo é usar canabinoides como forma de reduzir os efeitos e o sofrimento da abstinência do uso de crack. Tem pesquisas científicas em universidades federais que indicam isso, mas tem muita resistência. Essa é a minha posição, a minha defesa, que pretendo levar adiante”, disse.

Segundo Soninha, “a ideia não é fazer o dependente fumar maconha para largar o crack, mas cada vez mais se admite o uso, a experiência como modo de atenuar o sofrimento do usuário”. Ela compara os efeitos dos derivados da maconha aos da morfina, que possibilita conforto a doentes graves. “Alguém é contra o uso da morfina para o tratamento do câncer?.” A assessoria do prefeito eleito informou que Soninha “tem plena autonomia para debater opções de abordagem ao problema do crack em São Paulo”.

Sobre o programa De Braços Abertos, implementado pela gestão Fernando Haddad (PT), Soninha afirmou ser favorável à continuidade de alguns aspectos, como a oferta de moradia digna, mas disse que pretende alterar, por exemplo, a forma de remuneração a quem aceitar passar por tratamento.

“Em vez de pagamento em dinheiro, podemos condicionar o beneficio à adesão às oficinas culturais, de esporte, e às rodas de conversa. Nos Estados Unidos, quem adere ao tratamento e comparece tem direito a ingresso de cinema, a uma refeição num restaurante. O dependente de drogas tem muita dificuldade para lidar com o dinheiro.” Soninha promete que as condições hoje oferecidas pelo programa de Haddad serão estendidas a todos os dependentes – hoje, são cerca de 500 inscritos. Ela não explicou se haverá verba para ampliar as vagas em hotéis, por exemplo.

Refugiados. Para Soninha, a situação dos moradores de rua da cidade se assemelha à de refugiados. Segundo ela, São Paulo tem hoje verdadeiros “acampamentos de refugiados”. Sua meta, diz, é dar dignidade a essa população, a começar pela oferta de locais públicos de convivência durante o dia.

A vereadora defende a volta da política de incentivo às tendas, em que as pessoas que vivem nas ruas podem passar o dia, tomar banho, lavar suas roupas e guardar seus pertences. Adotada na gestão Gilberto Kassab (PSD), essa política foi esvaziada por Haddad. “Podemos ter uma estrutura de acolhimento muito melhor e a curto prazo.”

Para Semíramis Vedovatto, do Conselho Federal de Psicologia, o uso de derivados da maconha é uma possibilidade de tratamento, mas precisa ser comprovada com estudos técnicos. Ainda são poucas as pesquisas, até pelas restrições ao uso da maconha no País. Mas Semíramis avalia ser positivo o debate. “Isso abre espaço para que possamos ampliar as estratégias de atendimento a usuários de álcool, crack e outras drogas.”

Para a psiquiatra Maria de Fátima Padin, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a substituição do crack pela maconha faz com que o usuário tenha recaídas. “É um absurdo médico.” / COLABOROU LIGIA MORAIS, ESPECIAL PARA O ESTADO

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