Sónar tem primeiro show em 3D, mas público se fixa mais na música

Na 1ª noite do festival, Kraftwerk lembrou futurismo dos anos 70; no ápice, Chromeo apostou no electrofunk

JOTABÊ MEDEIROS , ROBERTO NASCIMENTO, O Estado de S.Paulo

13 de maio de 2012 | 03h04

Às 23h30 de sexta-feira, o Kraftwerk subiu ao palco na primeira noite do Sónar - Festival Internacional de Música Avançada e Arte New Media, no galpão de exposições do Anhembi, com seus uniformes fosforescentes que lembram o futuro do filme Tron (1982), primeira animação da era pré-computadorizada. Mais de 15 mil pessoas com óculos testemunharam o primeiro show em 3D no Brasil.

A banda alemã abriu com (We Are) The Robots, cartão de apresentação de um tempo de euforia espacial, em que eles foram os primeiros, na música, a enxergar com os óculos da antiutopia. Após uma hora de show, muitos assistiam sem os óculos, interessados mais na música que nas projeções. Um lugar menor talvez potencializasse os efeitos (a banda fez isso em Nova York, no Museu de Arte Moderna, MoMA, com grande impacto).

Radioatividade, desumanização, Hiroshima, Fukushima, alimentação artificial, transgênicos, o carro ocupando o lugar do homem: tudo já tinha sido advertido pelo Kraftwerk em finais dos anos 1960, início dos anos 1970. Foram os primeiros a buscar o som de uma voz humana engolida pela máquina. Ao lado de Stanley Kubrick com o filme 2001, Uma Odisseia no Espaço, eles denunciaram que o mistério não estava no monolito da tecnologia, mas na própria natureza humana.

Não se trata apenas de banda pop, mas funcionam como tal, porque ao longo do seu percurso os alemães institucionalizaram a dance music e foram responsáveis pelo surgimento de bandas como Human League, Depeche Mode, New Order, entre outros filhos do synth-pop.

Curioso que a banda proibiu fotógrafos profissionais de registrarem seu show - todo mundo hoje fotografa e grava com celulares. O protótipo de um desktop antigo surgia na tela durante a música Computer World, enquanto o público, com Ipads e celulares, filmava o show, num choque proposital entre obsolescência e atualização tecnológica.

Ao se despedirem, saindo um de cada vez, ao som de Music Non Stop, era como se ficasse um grande vazio no espaço, um vazio que nem toda a música que o Sónar projetasse para as próximas horas, os próximos dias, pudesse preencher.

Expo moderna. A noite de anteontem seguiu para uma mistura bipolar de agressividade e contemplação. Criolo e James Blake faziam soul contemporâneo. O rapper MF Doom destilava rimas nervosas. Foi quando o DJ escocês Hudson Mohawke subiu ao palco principal e, com ecos de hip hop sulista, incitou a sensualidade. A música era lenta, viscosa, grave e variava apenas para construir tensão e desferir o pancadão perverso. Sirenes davam urgência marcial às faixas - sensação ampliada pela clássica bateria eletrônica TR-808. O tom bélico de uma corneta militar wagneriana levou o público ao delírio, e o Mohawke tocou o único hit de seu set, a doce Genesis, da cantora Grimes.

Depois foi a vez do Chromeo levar a noite ao ápice. Na frente de duas mesas de som sustentadas por sensuais pernas de plástico, Dave 1 e P-Thugg não fizeram nada refinado. Só electrofunk com refrões contagiantes, em sequência compacta para tirar a pista do chão - feijão com arroz que faltava ao festival.

Meio armazém, meio salão do automóvel, o Anhembi lembrava um shopping japonês em sua vibração digital. Havia grama sintética num dos palcos e telões com videogames em outro saguão. Parecia uma expo de música eletrônica contemporânea. Apesar de o acesso entre um palco e outro ficar congestionado, havia amplo espaço no palco principal com área de descanso. Comes e bebes na faixa de preço de outros festivais: R$7 a cerveja; R$ 10 a pizza. Havia banheiros em quantidade suficiente, mas longe dos palcos, especialmente do palco principal, e as diversas locações estavam mal sinalizadas.

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