Solução é multar, educar e investir, dizem especialistas

No mundo, acidentes fazem 1,2 milhão de vítimas todo ano; são 34 mil só no Brasil, segundo a OMS

Diego Zanchetta e Rodrigo Brancatelli, de O Estado de S. Paulo,

18 de setembro de 2008 | 00h05

Pelas contas da Organização Mundial de Saúde (OMS), morrem no trânsito cerca de 1,2 milhão de pessoas por ano no mundo todo. São 34 mil só no Brasil, o equivalente a 85 Boeings 747 lotados. A escalada da guerra no trânsito só tende a piorar - seguindo essa trilha das estatísticas, o trânsito será a terceira causa de mortes em São Paulo e no resto do País por volta de 2020, daqui a apenas 12 anos. Para tentar ajudar a frear essas estatísticas, o Estado convidou cinco especialistas para apontar idéias. 1. Multar mais e ter fiscalização aleatóriaSegundo a CET, 4 entre 5 carros não levam nenhuma multa em um ano. Estudo divulgado em 2006 mostra ainda que a companhia só consegue multar 1 a cada 17 mil infrações. É pouco, muito pouco, para quem quer coibir abusos e educar a população. A cidade tem atualmente cerca de 2 mil marronzinhos - bem abaixo do necessário, segundo especialistas - e apenas 367 radares/equipamentos, o mesmo número de equipamentos de cidades como Campinas ou Santos. Há três anos, o consultor Horácio Figueira ofereceu de graça ao governo plano de fiscalização aleatória, medida que pode ser adotada em curto prazo mesmo sem contratação de mais agentes. Nesse plano, marronzinhos seriam distribuídos por São Paulo por sorteio em computador. "O motorista não pode saber onde o fiscal vai estar. Se o motorista acha que ele pode ser multado, ele não comente a infração, isso é mais do que óbvio. Mas hoje ele conhece direitinho onde vai estar o marronzinho. A CET só monitora 6% do viário. Com a fiscalização aleatória, um dia ia ter um marronzinho na esquina de casa, perto da padaria, em qualquer lugar... Aí eu quero ver não usar cinto, correr, falar ao celular." 2. Tapar buracos e pintar faixas nas ruasPequenas soluções podem trazer grandes resultados. Quem prova é a matemática. Em 2007, seguindo análise feita pela CET de 284 mortes no trânsito, 14% dos casos tinham como fator contribuinte o estado da via. Além disso, 70% dos pedestres mortos estavam andando fora da faixa de pedestres. Na quinta-feira, por exemplo, duas crianças foram atropeladas perto de uma escola municipal na esquina da Rua Estado do Amazonas com a Avenida da Barreira Grande, em São Mateus, zona leste. O motivo: simplesmente não há semáforo nem faixa de pedestre, mesmo com o grande número de crianças que atravessam no local. "Um único buraco na Radial Leste ou na 23 de Maio também pode significar a morte de um motoboy", alerta o presidente da Comissão de Trânsito da OAB, Cyro Vidal. 3. Investir em campanhas de educaçãoO Código de Trânsito Brasileiro prevê no artigo 76 que "a educação para o trânsito será promovida na pré-escola e nas escolas de 1º, 2º e 3º graus". "Cite um colégio de São Paulo que tenha aula de trânsito depois do ensino fundamental que eu troco meu nome", diz o presidente da Comissão de Trânsito da OAB. Como ele explica, os congestionamentos paulistanos têm o efeito perverso de impor a lei da vantagem. "Não adianta só ter Semana Nacional do Trânsito nem educar só as criancinhas na pré-escola. É preciso educar pais, motoboys, todo mundo que mata e morre no trânsito." 4. Criar faixas exclusivas para bicicletas"Enxergar" o ciclista ainda é exercício de cidadania pouco praticado por motoristas. "Deveriam existir mais faixas exclusivas. E campanhas educativas para orientar o motorista a respeitar tanto o pedestre como o ciclista", afirma Júlia Grave, do Laboratório de Estudos do Movimento do Hospital das Clínicas. A capital tem apenas 23,5 quilômetros de ciclovias ante 625 km em Berlim, 379 km em Paris, 400 km em Amsterdã e 300 km em Bogotá e Copenhague. Pior: as melhores ciclovias paulistanas ficam em parques, que concentram 19 quilômetros. As de rua, como nas Avenidas Sumaré e Faria Lima, estão inoperantes e em péssimas condições. Um alento é que pela primeira vez numa eleição municipal investimentos em ciclovias estão nos projetos de pelo menos quatro candidatos - Marta, Kassab, Alckmin e Soninha prometem ampliar ciclovias. 5. Tirar da rua carros e motos em más condiçõesDas 700 ocorrências a que a CET atendeu diariamente em 2007, mais da metade referia-se a veículos quebrados. O bloqueio de uma única faixa na Marginal do Tietê por apenas 15 minutos provoca, em média, 3 quilômetros de fila. Segundo o Denatran, cerca de 73% da frota do País tem mais de dez anos. A Inspeção Técnica Veicular, prevista desde 1997, quando foi lançado o novo Código de Trânsito Brasileiro, é um meio de retirar esses carros de circulação. O início das inspeções para verificar nível de emissão de poluentes começa em maio de 2009. Entre os 6.706 veículos movidos a diesel que passaram neste ano pelo teste, metade apresentou algum tipo de problema, como emissão em excesso de poluentes. "O governo do Estado teria de estender a medida e implantar a inspeção nas cidades vizinhas", defende Lucila Lacreta, do Movimento Defenda SP.

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