Rafael Arbex/Estadão
Rafael Arbex/Estadão

Polícia Civil liberta sogra de chefe da Fórmula 1 e prende 2 sequestradores

Simulando uma entrega de móveis, bandidos haviam invadido a casa da vítima em Interlagos, na zona sul; resgate pedido pelos criminosos era de € 168 milhões

Alexandre Hisayasu, Bruno Ribeiro, Fabio Leite e Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

31 Julho 2016 | 19h35
Atualizado 01 Agosto 2016 | 07h44

SÃO PAULO - A Divisão Antissequestro (DAS) da Polícia Civil libertou neste domingo, 31, às 18h40, Aparecida Schunk Flosi Palmeira, de 67 anos, sogra do chefe da Fórmula 1, Bernie Ecclestone, de 85. Ela havia sido apanhada em casa pelos bandidos, em 22 de julho, na zona sul de São Paulo. Dois sequestradores foram presos. Não houve pagamento de resgate.

Os policiais estouraram o cativeiro, que ficava em uma chácara, na Rua São Serafim, em Cotia, na Grande São Paulo. Os investigadores chegaram ao lugar depois que conseguiram identificar três suspeitos de participação no crime. Foram presos os acusados Vitor Oliveira Amorim e Davi Vicente Azevedo. Segundo o delegado Carlos Targino da Silva, titular da DAS, os detidos foram os homens que invadiram a casa da vítima.

Aparecida é mãe de Fabiana Ecclestone, com quem Bernie se casou em agosto de 2012. Ela trabalhou em uma empresa responsável pelo marketing do GP Brasil de Fórmula 1, onde conheceu o empresário em 2009. Hoje, o casal vive em Londres. Aparecida era costureira e mora na zona sul, perto do Autódromo de Interlagos, onde é realizado o GP Brasil.

Os sequestradores mantinham contato com família apenas por e-mail. Os bandidos exigiam € 168 milhões de resgate. Parte teria de ser paga em real (R$ 5 milhões) e outra em dólares (US$ 5 milhões). Segundo a revista Forbes, Bernie Ecclestone tem uma fortuna avaliada em US$ 3,1 bilhões, cerca de R$ 10 bilhões. Caso a família concordasse em pagar o resgate, ele seria o maior já pago na história dos sequestros no Brasil.

A ação dos bandidos começou quando dois homens invadiram a casa de Aparecida, na Rua João Teizen Sobrinho, em Interlagos. Eram 13h30. Os bandidos tocaram o interfone e anunciaram que estavam ali para fazer a entrega de móveis que a sogra de Bernie aguardava.

De fato, Aparecida esperava receber os produtos, que seriam entregues em sua casa. Por isso, ela se adiantou às duas funcionárias da casa e foi abrir o portão. Acabou dominada pelos criminosos.

Além dela, os bandidos tiveram de conter as duas empregadas domésticas da família: Maria das Graças Gomes de Matos, de 34 anos, e Gilvaneide Rosa de Oliveira, de 36 anos. Os criminosos, então, disseram que se tratava de uma sequestro e afirmaram que a ação era uma “fita dada”. Ou seja, que alguém lhes havia passado informações detalhadas sobre a vítima.

Pistas. A descrição dos bandidos foi a primeira pista da polícia. Um deles era um homem branco, que parecia ter entre 30 e 35 anos. Ele media, segundo as testemunhas, cerca de 1,75 metro de altura e estava vestindo uma calça jeans e um moletom cinza. Usava ainda um bigode ralo, era magro e tinha na mão direita um sol colorido tatuado. O outro criminoso tinha a pele parda e aparentava entre 18 e 20 anos. Ele vestia calça preta e blusa vermelha.

Segundo as empregadas contaram aos homens da DAS, os criminosos entraram na casa pela cozinha. De Maria das Graças, os bandidos levaram o telefone celular. Eles mantiveram as duas em um cômodo da casa. Os bandidos obrigaram então Aparecida a entrar no Fiesta da família e fugiram com a vítima.

O carro foi encontrado mais tarde pela polícia na Rodovia Raposo Tavares, na região do Rio Pequeno, na zona oeste. A perícia foi chamada para examinar o veículo em busca de provas contra os criminosos. A família avisou a polícia. Primeiro por meio do 102.º Distrito Policial, a delegacia do bairro, que registrou o caso. Depois, foi a vez da DAS ser informada.

Desde então, o caso passou a ser investigado pela Divisão Antissequestro. À família, os sequestradores exigiram que a imprensa e a polícia fossem mantidos afastados do caso. Policiais da DAS estiveram na casa da família e tentaram obter as imagens das câmeras de segurança da casa - um sistema grava imagens internas e externas do imóvel. A família, no entanto, não dispunha da senha para entregar as imagens aos policiais.

Quando a polícia tentava obter acesso às imagens, a família recebeu a primeira mensagem dos bandidos. Por meio de um e-mail, eles fizeram o pedido de resgate. A polícia começou a rastrear o e-mail para tentar localizar os criminosos. Além disso, obteve as imagens das câmeras.

Prova de vida. Para a DAS, era quase certa a participação de algum conhecido da família ou ex-funcionários da vítima. Teria sido essa pessoa quem entregou aos criminosos as informações sobre a encomenda dos móveis na casa de Aparecida.

As negociações dos sequestradores com a família prosseguiram. A família exigiu que uma prova de que Aparecida estava viva lhe fosse enviada pelos bandidos. Também informou que não tinha o dinheiro exigido pelos bandidos como resgate e pediu que o valor fosse reduzido.

Durante esse tempo, os policiais conseguiram identificar três suspeitos do crime e localizar o cativeiro. Na noite deste domingo, os homens da DAS estavam interrogando os acusados detidos, enquanto Aparecida reencontrou sua família na entrada da divisão.

GP do Brasil uniu casal

O casal Bernie e Fabiana Ecclestone se conheceu durante o Grande Prêmio do Brasil de Fórmula 1 em 2009, no qual Fabiana trabalhou na organização da prova. A advogada era vice-presidente de marketing na empresa responsável pelo evento e que pertence ao empresário húngaro Tamas Rohonyi, amigo de Bernie Ecclestone, o chefe da Fórmula 1.

Os dois teriam depois feito juntos um cruzeiro na Croácia e mantido contato desde então. Eles se casaram em agosto de 2012 em uma cerimônia reservada no vilarejo de Gstaad, na Suíça. Desde então, eles vivem em Londres. Em 2012, o casal adquiriu uma fazenda de 200 hectares em Amparo, no interior do Estado, para investir no cultivo e processamento de café. É lá que é produzido o chamado “Celebrity Coffee”, servido nos cafés da F-1.

‘Estado’ não publicou caso a pedido da família

O Estado acompanhava o sequestro desde a noite de 22 de julho. A reportagem entrou em contato com a família de Aparecida Schunk Flosi Palmeira. Seus familiares não quiseram dar entrevista, mas pediram que o jornal não publicasse o sequestro da sogra de Bernie Ecclestone para não pôr em risco a vida da vítima. Por isso, o Estado decidiu não noticiar o caso enquanto Aparecida estivesse em cativeiro.

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