Imagem Jairo Bouer
Colunista
Jairo Bouer
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Socorro!

A última semana foi trágica para muitos jovens no Sul do País. Em Sombrio (SC), um jovem de 16 anos confessou ter tirado a vida do namorado, também de 16, no banheiro da escola em que ambos estudavam. Eles teriam feito um pacto, em que um ajudaria o outro a se matar. No entanto, depois da morte do primeiro, o outro teria se assustado, desistido da ação e tentado buscar ajuda. Mas foi tarde!

JAIRO BOUER,

24 Novembro 2013 | 02h03

Segundo informações da polícia, os jovens estavam juntos havia quatro meses, mas, por enfrentar resistência da família de um deles ao relacionamento, decidiram se matar. O jovem teria morrido asfixiado, mas havia seringas e agulhas próximas ao seu corpo. Os meninos eram calmos, reservados, com bom desempenho na escola e nunca apresentaram sinais de agressividade ou deram "pistas" de que esse tipo de situação pudesse acontecer. As famílias dos dois sabiam do relacionamento.

Em Veranópolis (RS), uma jovem, também de 16 anos, teria cometido suicídio depois que teve fotos íntimas divulgadas na internet. Um colega com quem tinha tido um namoro seis meses antes divulgou, pelo celular e redes sociais, imagens em que ela aparecia seminua. A garota teria postado no Twitter um aviso de que resolveria a questão e não atrapalharia a vida de mais ninguém.

Os dois jovens eram colegas de escola, as fotos haviam sido feitas a partir de uma conversa via webcam e, há um mês, ela estava namorando outro rapaz. O caso lembrou outra história, que aconteceu em Parnaíba (PI) uma semana antes, quando outra jovem de 17 anos teria se matado depois que teve um vídeo íntimo divulgado pelo WhatsApp (sistema de troca de mensagens pelo celular). A jovem também teria usado o Twitter para se desculpar com a família.

Em comum, tanto Sombrio, pequena cidade no extremo sul de Santa Catarina, quanto Veranópolis, na serra gaúcha, têm população de cerca de 25 mil habitantes. Parnaíba é uma cidade média, com 150 mil habitantes.

Tantas histórias tristes em um intervalo tão curto de tempo merecem reflexões. Até que ponto esse jovem de 16, 17 anos, precoce no exercício da sua sexualidade, está preparado para lidar com algumas situações-limite?

É claro que ter imagens íntimas divulgadas pela internet em uma cidade em que todos se conhecem ou, ainda, se sentir vítima de preconceito e intolerância por parte de alguns setores da sociedade e da própria família não são realidades fáceis de lidar. Muito menos para os adolescentes! Talvez um pouco mais de experiência, maturidade, habilidade social e percepção da necessidade de buscar ajuda externa para resolução de um conflito poderiam ter salvado a vida desses jovens.

As taxas de suicídio entre jovens têm aumentado no mundo todo e estão exigindo novas estratégias para se lidar com esse risco. A precocidade chegando antes de uma maturidade mínima para se lidar com as eventuais consequências dos próprios atos é um problema. A capilaridade, rapidez e alcance da internet e das redes sociais para divulgar ofensas, violências e intimidades são outros problemas. Um pensamento ainda quase mágico de alguns adolescentes de que a morte pode ser a solução para se evitar o vexame, o constrangimento ou um grande problema é um complicador.

Em um momento em que há uma transição de uma sociedade mais provinciana e conservadora em boa parte das pequenas e médias cidades do Brasil para um universo muito mais cosmopolita e liberal trazido pela internet e pelas mudanças de comportamento em curso entre os jovens, um choque de posições parece inevitável. Junte-se uma boa dose de exibicionismo e necessidade de ser "popular" no mundo real e virtual e ainda certa "inocência" dos impactos que comportamentos por trás de telas, webcams e smartphones podem ter na vida, e teremos o cenário quase completo.

Sem trabalhar com esse jovem a importância de aprender a lidar com riscos e impactos que as escolhas podem ter em nossa vida, vai ser difícil evitar algumas dessas tragédias. Para um novo mundo, novos comportamentos e realidades, é fundamental entender melhor emoções, conflitos e necessidade de pedir socorro.

JAIRO BOUER É PSIQUIATRA

Mais conteúdo sobre:
JAIRO BOUER

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.