Sobrevivente desistiu de se atirar do terceiro andar

Funcionário do prédio da TAM foi impedido por um amigo de se jogar; juntos, foram salvos pelos bombeiros

Humberto Maia Junior, do Estadão,

20 de julho de 2007 | 00h56

O consultor em Tecnologia da Informação, de 33 anos, nem deveria estar trabalhando às 18h50, quando o A-320 da TAM não conseguiu pousar na pista principal do Aeroporto de Congonhas, bateu e explodiu, matando pelo menos 188 pessoas. Normalmente, ele trabalhava das 8 às 17h30, mas ficou até mais tarde por causa de uma reunião.   Veja também:  Cobertura completa do acidente com o vôo 3054 da TAM   A maioria dos colegas tinha ido embora. Ele trabalhava em seu lap top e conversava com um amigo, Paulo Zani, quando ouviu um estrondo. Havia outras pessoas na sala. Imediatamente, as luzes oscilaram, até se apagarem completamente. Em pouco tempo, a fumaça se espalhou. "Ninguém conseguia enxergar nada", conta. "Eu só conseguia ouvir muitos gritos e pedidos de socorro."   Silva pegou a mão do amigo e, juntos, tentaram sair pelo elevador. Não dava. Tentou a escada. Estava obstruída pelos destroços. "Todo mundo estava em pânico." A fumaça estava cada vez mais densa e as pessoas estavam em pânico.   Em meio à confusão, ele se lembrou de uma sala que poderia ter uma janela. Tateando na escuridão e a fumaça, Silva e Zani conseguiram abrir a porta dessa sala e ver a janela.   Se a janela poderia ser aberta com as mãos, ele não se lembra. "Peguei uma cadeira e quebrei o vidro." Vanderlei se recorda da sensação sentida com a lufada de ar puro. "Me debrucei para respirar melhor." Imediatamente, lembrou-se dos colegas de trabalho, que, desesperados, não conseguiam encontrar uma saída. "Tentei chamar por eles, mas ninguém prestava atenção no que eu dizia."   A sensação de voltar a respirar foi logo abandonada. A fumaça aumentava. E, embora ainda não tivesse visto fogo, ele temia morrer queimado. Fraquejou. "Eu quis pular, mas o Paulo não deixou."   O medo aumentava porque as equipes do Corpo de Bombeiros não conseguiam tirá-lo de lá. "Os bombeiros tentavam nos acalmar e nos passavam instruções, falaram para respirar com a camisa cobrindo o nariz. Mas não conseguiam nos alcançar." Por um problema com a escada do caminhão, a operação teve de ser suspensa.   Silva chegou a pensar que os bombeiros tinham-no abandonado. "Eu sentia muita angústia. Em vários momentos, senti que não fosse dar (para sair vivo). Mas embaixo as pessoas nos pediam calma e pediam para não pular."   Além da fumaça, o calor incomodava e era sinal de perigo. "A fumaça era cada vez maior e estava muito quente."   Em todo o momento, o consultor tinha consciência de que um avião havia explodido. "Por conta da explosão, não tinha como não saber."   Lá embaixo, os bombeiros continuavam o trabalho de resgate. De cima, ele observava tudo. "Eu rezava e pensava que só queria estar ali, respirando um pouco de ar." Até que finalmente os bombeiros conseguiram uma escada que pudesse alcançá-los. Silva foi o primeiro a ser retirado. O amigo foi logo em seguida.   "Estava muito sem ar, bastante fraco. Fui logo colocado na maca, mas queria agradecer aos bombeiros, que, num ato de coragem, fizeram de tudo para nos salvar."   Na quinta-feira, ao relatar à imprensa sua fuga, ele lembrava com tristeza dos amigos que ele nem sabe se estão vivos: "O que fica na cabeça é o grito das pessoas, agoniadas." Fora isso, ele sofreu apenas escoriações, provocadas durante a fuga no escuro, algumas queimaduras nos braços e comprometimento das vias respiratórias. Passou 24 horas na UTI do Hospital São Luiz, no Morumbi, e fica em observação até o final da semana. "Apenas solto secreção com sujeira, mas está tudo bem."   Depois de sobreviver à tragédia, ele diz acreditar que ainda tem uma missão não cumprida. "Eu tenho uma mulher e três filhas para cuidar." Diz também ter adquirido nova perspectiva de vida. "Vejo as coisas com outra ótica. A vida está na frente de qualquer coisa, de dinheiro ou posição profissional."   O consultor diz não pensar nos culpados pelo acidente - se foi o piloto, falha mecânica ou problemas na pista. "Não tenho revolta porque não sei o que causou o acidente. Eu estou vivo porque corri para o lado certo e porque Deus me iluminou."

Mais conteúdo sobre:
vôo 3054

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.