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Sobre o bullying e a biologia do órgão excretor

Hoje boa parte dos brasileiros escolhe seus representantes para os próximos quatro anos. Do ponto de vista do comportamento jovem e da saúde pública, algumas questões ganharam destaque no debate eleitoral, mas outras ficaram em segundo plano.

Jairo Bouer, O Estado de S.Paulo

05 de outubro de 2014 | 02h04

Se você ainda não foi às urnas, vale a pena pensar em como seus candidatos se posicionaram em relação a alguns desses temas durante a campanha ou, caso já tenha votado, é bom ficar atento para quais rumos esses pontos vão migrar nos próximos quatro anos.

A lista é grande: métodos contraceptivos mais efetivos na prevenção da gestação na adolescência (que ainda é da ordem de quase uma em cada cinco meninas engravidando antes dos 18 anos), discussão da legislação do aborto (hoje uma das principais causas de morte de mulheres jovens e pobres no País), atenção à saúde emocional (a depressão atinge quase 30% das garotas e o suicídio cresce entre os mais jovens no Brasil), o trabalho mais efetivo na prevenção do consumo precoce de álcool e outras drogas (e na associação do uso das diversas substâncias com comportamento de risco), além de uma postura mais ativa no controle do bullying nas escolas, talvez um dos motores mais fortes de violências, preconceitos e intolerância, principalmente na esfera sexual. Além disso, medidas de como garantir emprego e perspectiva para a população jovem e oferecer alternativas que diminuam a criminalidade, a campeã das mortes entre os garotos jovens.

Homofobia. Não há dúvida de que homofobia foi o tema que explodiu na semana passada. Em parte, em função da ausência de uma posição mais clara dos principais candidatos, que ficam em cima do muro para não se comprometer, os nanicos deitaram e rolaram. Em pleno século 21, soam como atrocidades as declarações contra os direitos igualitários para a população homossexual. Pior, isso impacta diretamente sua saúde e comportamento.

Quer alguns dados? Hoje temos um dos maiores índices de violência do mundo contra gays, lésbicas e transgêneros. Não bastasse isso, pela dificuldade em lidar com os setores mais conservadores do Legislativo, os governos têm tido dificuldade de pautar uma discussão e campanhas de saúde focadas nesse público. Assim, só para citar um exemplo, a prevalência do vírus HIV tem crescido de forma preocupante na população de homens jovens que fazem sexo com outros homens. Em algumas cidades, o índice de contaminação é de 10 a 20 vezes maior do que na população em geral. Não falta foco nessa abordagem? Não seria importante falar de prevenção de uma forma despida de preconceitos?

O bullying motivado pela orientação sexual diversa começa forte ainda na escola, que raramente tem se ocupado de forma séria e proativa para prevenir esse fenômeno.

Um estudo da Universidade do Missouri, publicado na semana passada no Journal of Child and Family Studies, mostra que uma intervenção mais estruturada no combate ao bullying surtiu efeito entre as garotas que gostam de falar mal dos outros. O método girlss (sigla em inglês para aprimorando relações interpessoais por meio de aprendizado e suporte sistêmico) merece uma avaliação cuidadosa pelas áreas de saúde e educação. Outro método estruturado que tem tido bons resultados no mundo desde 2007 é o finlandês KIVa, já comentado nesta coluna. Vale a pena checar! Desconstruir preconceitos é um trabalho fundamental na escola.

Excreção e excrescências. E só para corrigir, do ponto de vista biológico, o candidato mais equivocado sobre essa discussão: o aparelho excretor, de fato, na espécie humana, não reproduz. Quer dizer, se formos ser precisos, parte do sistema excretor reproduz, sim, uma vez que os órgãos do gênito-urinário são integrantes do nosso sistema excretor.

Além disso, já há milhares de gerações, provavelmente desde que nossos antepassados começaram a caminhar em pé, sobre dois membros, eles perceberam que o sexo não servia apenas para reprodução. Ele é feito entre os humanos, na maior parte das vezes, porque dá prazer e é bom. E prazer, cada um descobre o seu! O Estado não pode e não deve decidir sobre isso.

Mais: se a gente for pensar na proporção de pessoas que fazem sexo anal no mundo, pode apostar que a população homossexual, também nesse caso, é uma minoria.

O candidato ficaria de bigode em pé se soubesse a quantidade de heterossexuais que apreciam e apostam nessa modalidade, da mesma forma que praticam o sexo oral (outra possibilidade que, em nossa espécie, não resulta em reprodução).

É PSIQUIATRA

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