Sobrado de família que protestou contra desapropriação pintando rua é demolido

O matemático Thiago Rodrigo Alves Carneiro, de 32 anos, chegou a pintar a rua em frente à casa em protesto. Em março, a família começou a briga contra a perda do imóvel

André Cabette Fábio, O Estado de S. Paulo

07 Maio 2013 | 11h52

SÃO PAULO - As máquinas das obras da Linha 17-Ouro do Metrô de São Paulo, em forma de monotrilho, transformaram na quarta-feira, 3, em entulhos o sobrado da Avenida Vereador José Diniz, próximo à Avenida Jornalista Roberto Marinho, no Campo Belo, na zona sul da capital. Ele foi por mais de quarenta anos o lar da família da pensionista Maria Craveiro Alves Carneiro, de 68 anos. Mas durou apenas um ano desde que os moradores foram notificados de sua desapropriação, apesar da resistência do matemático e estatístico Thiago Rodrigo Alves Carneiro, de 33 anos, filho de Maria, que chegou a pintar a rua em frente à casa em protesto. Segundo ele, o desgaste do processo contribuiu para que sua mãe, vítima de câncer, perdesse o braço direito.

"O que nos deixa indignados não é o ato desapropriatório em si, mas a forma desapropriada como a companhia (do Metrô) trata as pessoas: como um monte de entulho que precisa ser removido a qualquer custo e a qualquer preço", critica. A briga começou em março do ano passado, quando a família foi avisada da desapropriação pouco depois de uma reforma de R$ 100 mil. A oferta era, então, de R$ 375 mil. 

A família contestou a desapropriação na Justiça, usando, entre outros argumentos, a saúde de Maria. Ela sofre de câncer nos braços e nas costas e era extremamente apegada à casa até sua demolição. Em abril de 2012, o Estado registrou a maneira como, numa medida dramática, a família pintou o asfalto em frente ao imóvel com os dizeres "Metrô: tira minha vida, mas deixa minha casa em pé!".

Na Justiça, a família ainda conseguiu o aumento do valor oferecido para R$ 840 mil, com valores referentes a maio de 2013 - apesar de o Metrô avaliar a casa em R$ 600 mil. Outra conquista foi o pagamento antecipado de R$ 70% do valor antes que fossem despejados em dezembro. Mas os cinco dias de mudança coincidiram exatamente com a descoberta do agravamento do estado de saúde de Maria, que foi para o hospital e teve o braço direito amputado. "Não tínhamos tido garantia de que iríamos receber antes de perder a casa, e ela ficou estressada, achava que não ia ter pra onde ir", conta Thiago.

O matemático se mudou nessa época com a mãe para uma casa atravessando a rua, de onde assistiu o sobrado vazio ser cercada pelos tapumes do metrô. Neles, escreveu os dizeres "Uma casa, uma vida, um amor. Tudo destruído pelo metrô". Na quarta-feira, fotografou a demolição. Agora, o local deve dar espaço à estação Vereador José Diniz. Como dava aulas de matemática para alunos particulares nos fundos de sua casa, Thiago ainda planeja exigir uma indenização por perda de ponto comercial. Para ele, seu caso não é isolado. "As pessoas não se manifestam com medo de terem como represália um valor ainda menor", afirma.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.