FELIPE RAU / ESTADÃO
FELIPE RAU / ESTADÃO

Sob Doria, fila para exames cai, mas cresce demanda por consulta e cirurgia

Com programa de mutirão Corujão da Saúde, prefeito conseguiu reduzir em 61% o número de pacientes que aguardam exame no SUS da rede municipal; em contrapartida, fila por consultas de especialidades e cirurgia aumentou em relação à da gestão anterior

Bianca Gomes e Fabiana Cambricoli, O Estado de São Paulo

26 Dezembro 2017 | 03h00

Com fortes dores na coluna e inchaço no corpo, a recepcionista Lilian Trombim, de 39 anos, esperou 11 meses para ter agendada na rede municipal de saúde a tomografia na coluna que ajudaria a definir o seu diagnóstico. Foi finalmente atendida em fevereiro deste ano pelo programa Corujão da Saúde, iniciativa do prefeito João Doria (PSDB) em parceria com hospitais privados para zerar a fila de espera por exames na capital. A tomografia foi feita, mas Lilian ainda não sabe o que tem nem iniciou seu tratamento pois, até hoje, segue na lista de espera por uma consulta com um reumatologista, que analisaria os resultados. “Fiz o exame no Hospital Oswaldo Cruz, fui bem tratada, mas a consulta está demorando. Acho que terei de fazer os exame de novo. Esses não vão valer mais”, diz.

Quase um ano após assumir a Prefeitura, Doria reduziu em 61% o número de pessoas que aguardam um exame no Sistema Único de Saúde (SUS) da capital, mas não teve o mesmo desempenho no enfrentamento das filas por consultas de especialidades e cirurgias, que cresceram em comparação com as do último mês da gestão anterior.

Hoje, cerca de 845 mil pessoas ainda aguardam algum atendimento na fila da rede municipal. O número total é 25% menor do que o 1,13 milhão de procedimentos que estavam na lista em dezembro de 2016, mas a queda não é uniforme.

Com o Corujão, iniciado em janeiro, o número de exames na fila caiu de 607 mil em dezembro de 2016 para 234 mil em novembro deste ano, último dado disponível. Já a lista de espera por consultas de especialidades cresceu, passando de 439 mil para 497 mil. Os pedidos de cirurgias na fila, que a partir de julho foram incluídos no Corujão, também aumentaram, de 91 mil para 113 mil.

A situação faz com que relatos como o de Lilian – de pessoas que saíram da fila dos exames, mas seguem na espera pela avaliação médica – sejam comuns. Mesmo com o exame feito desde fevereiro, a instrumentadora cirúrgica Márcia Schiavino, de 59 anos, não conseguiu ainda vaga com um pneumologista. “Me encaixaram no Corujão e achei que logo teria a consulta, mas não teve jeito. No posto, me falaram para aguardar.” A solução para não ficar sem tratamento foi pagar uma consulta em uma clínica popular.

Para Walter Cintra Ferreira, coordenador do Curso de Especialização em Administração Hospitalar e de Sistemas de Saúde da Fundação Getulio Vargas (FGV), mutirões ajudam a aliviar o sistema, mas não são suficientes. “Ainda não conseguimos estruturar o SUS para dar conta de toda a demanda de consultas e outros procedimentos. A política de saúde não pode ser baseada em mutirões porque eles desafogam um nó crítico, mas logo aparecem outros.”

A aposta da gestão municipal agora é de reduzir as filas de cirurgias com a nova etapa do Corujão. Ao menos para o aposentado David Pacios Gonçalves, de 78 anos, o programa já teve um bom resultado. Ele esperava há mais de um ano por uma cirurgia de hérnia na virilha e foi atendido em setembro. “Meu pai sempre foi muito ativo e, com a hérnia, estava limitado. Agora voltou a fazer as atividades de forma independente”, conta a analista de importação Silmara de Queiroz, de 43 anos.

Médicos. Em seu primeiro ano, Doria também enfrentou a falta de médicos. Em 2017, o número de profissionais caiu de 12.953 para 12.529. A promessa de campanha de contratar de imediato 800 médicos não foi cumprida. O motivo seria a falta de verba prevista para a medida. 

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Fabiana Cambricoli e Bruno Ribeiro, O Estado de S. Paulo

26 Dezembro 2017 | 03h00

Questionado sobre o aumento das filas, o secretário municipal da Saúde de São Paulo, Wilson Pollara, afirmou que o problema se deve, principalmente, à descoberta de filas paralelas organizadas dentro de cada unidade e não reunidas em sistema único. “Havia um número de pessoas que aguardavam atendimento e que desconhecíamos. Agora estamos centralizando.” 

Disse ainda ser normal, mesmo com programas como o Corujão, haver filas porque novos pedidos de exames, consultas e cirurgias entram no sistema todos os dias. “Eles podem estar na fila, mas isso não quer dizer que vão demorar meses para ser atendidos.”

Sobre Lilian Trombim, a pasta disse ter agendado consulta com o reumatologista para 17 de janeiro e determinou a apuração dos motivos para a demora. Sobre Márcia Schiavino, afirmou que não havia pedido pendente na regulação, e que entrou em contato com ela para esclarecer eventuais falhas no atendimento/agendamento e para agendar a consulta para 24 de janeiro.

Sobre a promessa de 800 novos médicos, Pollara disse que as admissões não foram feitas por falta de verba. “Não teve orçamento, mas já fizemos a previsão orçamentária para 2018 e vamos contratar 600 até março.” Também é estudado um programa de incentivo para médicos na periferia. “Estamos tentando criar um bônus, vantagens adicionais para que médicos possam trabalhar na periferia com a motivação de terem ganho adicional”, disse o prefeito João Doria (PSDB) ao Estado

Gestão anterior.Questionada sobre as declarações de Pollara, a gestão Fernando Haddad (PT) disse, por nota, que “filas internas” dos hospitais para cirurgia ocorrem porque o paciente sai da fila geral para ser monitorado pelo hospital que o acolheu. Sobre a verba para contratar médicos, disse que fez dois concursos e deixou prontos “os trâmites” para chamar os aprovados.

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Fabiana Cambricoli e Bruno Ribeiro, O Estado de São Paulo

26 Dezembro 2017 | 03h00

Desafio da área da saúde, a Cracolândia foi alvo de inúmeras polêmicas no primeiro ano da gestão Doria. Após operação policial na área, em maio, o prefeito chegou a dizer que a Cracolândia havia acabado. Dias depois, anunciou a tentativa de buscar autorização judicial para fazer internações à força, o que acabou barrado. A Prefeitura optou, então, por fazer só internações voluntárias.

Hoje, segundo a Prefeitura, o chamado fluxo – concentração de usuários de droga – foi reduzido drasticamente, de 1.861 pessoas em abril para 414 em outubro. Moradores e comerciantes da área têm opiniões distintas sobre a operação. “O fluxo reduziu mesmo, não tem mais barracas e a feira livre de droga. Antes não dava nem para andar na rua”, diz o comerciante José Martins, de 55 anos.

Dona de uma pensão na Alameda Dino Bueno, Maria das Graças Bernardino, de 54 anos, tem percepção diferente. “Eles tiraram a Cracolândia da nossa porta para botar do nosso lado. A região continua degradada e ninguém quer frequentar. Minha pensão vive vazia.” Para Doria, como endereço, a Cracolândia acabou. Segundo ele, “ainda tem o consumo e o tráfico” em alguns locais do centro. “Mas não tem uma área de domínio de facção criminosa como existia”, disse ao Estado.

Em busca de ajuda. Quanto ao atendimento dos dependentes químicos, a gestão municipal diz que tem crescido o número de usuários que buscam tratamento. Em maio, no início do programa Redenção, eram 18 pacientes por dia. Hoje, são 27, segundo dados oficiais. Entre os que optam pela internação para desintoxicação, porém, só metade termina o tratamento de quatro semanas. Como as internações são todas voluntárias, o paciente pode sair quando quiser. Desde maio, 2.673 dependentes já foram internados pelo programa. Coordenador do Redenção, o psiquiatra Arthur Guerra disse que a taxa de cumprimento do tratamento já vem aumentando. “Em julho, 30% completavam o tratamento. Hoje são 52% porque melhoramos as abordagens e as indicações de quem precisa ser internado, mas precisamos aprimorar ainda mais esses processos.”

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