'Só UPP não vai resolver o problema de segurança'

'Quando se começa a falar em guerra, isso autoriza a morte de civis por policiais', afirma a socióloga Ludmila Ribeiro

Felipe Werneck / RIO, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2010 | 00h00

A socióloga Ludmila Ribeiro avalia que a tese do governo do Estado de que os recentes ataques seriam uma retaliação de criminosos à instalação de Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) em favelas cariocas, iniciada há quase dois anos, não passa de especulação. Segundo ela, essa avaliação é "precipitada". Ludmila também considera "exagerado" o uso de expressões como "tática de guerrilha" e "máfia italiana" para definir o que tem ocorrido na capital. "A guerrilha tem características próprias que não são aplicáveis nesse caso. Quando se começa a falar em guerra, isso autoriza a morte de civis por policiais."

Ela lembra ainda que há uma tendência de redução dos roubos no Rio e considera importante aguardar a consolidação dos números de criminalidade no mês para avaliar o impacto dos últimos casos. "Podem ser ataques isolados." Pesquisadora da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Ludmila está trabalhando na criação de indicadores para monitoramento e avaliação da eficiência das UPPs, que ela considera "indispensáveis". O objetivo do estudo, financiado pela Faperj, é auxiliar o trabalho da PM.

Como analisa os últimos episódios de violência ocorridos no Rio?

A discussão sobre UPPs é importante, mas levou a um reducionismo. Por outro lado, exatamente por estarmos tão focalizados nas UPPs , esquecemos que arrastão não é uma coisa nova no Rio, que incendiar veículos não é coisa nova. Parece-me que estamos sempre num movimento pendular. Ou valorizando as boas iniciativas ou reforçando as ruins. Ou elogiando a política de segurança, ou rechaçando crimes, mas essas coisas andam juntas. Só a UPP não vai resolver o problema de segurança. Mas só discutir arrastão ou outros atos de vandalismo também não vai resolver, é importante pensar no conjunto do fenômeno, isso seria mais produtivo. Afinal de contas, por que isso está acontecendo?

Por que, então?

Há grande investimento de homens nas UPPs, e com isso outras áreas me parecem estar menos valorizadas, mas essa análise ainda é superficial. Outro fator que deve ser levado em consideração é a dramaticidade de eventos semelhantes quando há eleição. O Rio de Janeiro tem vivenciado isso há algum tempo. É importante prestar atenção nisso e começar a pensar nas causas.

Você concorda com a análise do governo, de que os ataques são uma retaliação às Unidades de Polícia Pacificadora?

Acho que a reação foi um pouco precipitada. Há uma migração. Por exemplo: o lucro que tinham com atividades ilícitas nas áreas hoje ocupadas pelas UPPs, os traficantes deixam de ter, mas migram para outras localidades. Acho que é uma especulação, não vejo tanto como retaliação. Muitas vezes a entrada das UPPs não significa a incapacitação desses criminosos.

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