Só um em cada dez paulistanos utiliza cinto de segurança no banco de trás

Estudo da CET ainda revela que falta de uso por passageiros aumenta em cinco vezes o risco de morte de quem está na frente do veículo

Renato Machado, O Estado de S.Paulo

26 de julho de 2010 | 00h00

Solta no banco, engenheira foi jogada contra o teto 3 vezes e sofreu lesão medular 

 

Seja por medo de multa ou por saber a sua importância, o fato é que quase todos os motoristas paulistanos usam cinto de segurança. Por outro lado, ainda há grande resistência por parte dos passageiros, principalmente os do banco de trás. Estudo da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) mostra que apenas uma em cada dez pessoas no banco traseiro obedece a regra.

O trabalho da CET analisou o comportamento de motoristas de ônibus e táxis e dos ocupantes dos veículos particulares. Dentre os condutores, o índice mais alto de adesão ao cinto de segurança foi registrado entre os taxistas: 99%. O cumprimento da regra - em vigor na cidade desde 1994, antes mesmo da implementação do Código de Trânsito Brasileiro (em 1997) - também é considerado bom entre os motoristas de ônibus (98%) e dos carros de passeio (96,4%).

Os passageiros no banco da frente também costumam utilizar o cinto de segurança (92,9%). Por outro lado, os demais ocupantes dos veículos particulares praticamente ignoram as regras de segurança. Apenas 28,4% das crianças são transportadas de maneira adequada e 11,2% dos adultos usam o cinto de segurança atrás.

"O motorista ainda tem a preocupação de que vai ser multado, mas esse comprometimento não existe em quem está atrás", diz a gerente de Segurança da CET, Nancy Schneider. Ela acrescenta que o maior risco é uma falsa sensação de segurança por quem está no banco de trás. "Quem não usa cinto atrás é uma arma. Ele provoca risco para si e também para os ocupantes da frente. Mas acabam achando que estão seguros."

Perigo duplo. Os especialistas afirmam que o risco de morte do motorista e do passageiro do banco dianteiro aumenta cinco vezes se os ocupantes atrás não usam o cinto. "Sem ele, quem está na frente também poderá ser atirado contra o painel, apresentar lesões graves e morrer. Quem está atrás corre os mesmos perigos e afeta os demais ocupantes", diz o vice-presidente da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet), José Montal. As consequências vão de lesões graves, sobretudo na medula, até a morte.

Como os corpos dos ocupantes estão soltos, eles serão arremessados contra o motorista e o passageiro da frente. A multiplicação do peso da pessoa pelo valor da desaceleração provocada pelo acidente pode resultar em um efeito de até 3 toneladas sobre os ocupantes da frente. "As estruturas do banco e do cinto de segurança não são feitas para aguentar isso. Então os equipamentos de segurança de quem está na frente perdem o efeito", diz o gerente técnico do Centro de Estudos Automobilísticos (Cesvi), Marcus Romaro.

Apesar de o desrespeito ser maior por parte dos passageiros, conforme o estudo, a quantidade de multas por falta de cinto ainda é majoritariamente aplicada aos motoristas - um indício de que os passageiros não são devidamente fiscalizados. Foram 146,4 mil multas no ano passado por essa infração - e apenas 16,8 mil (11,5%) ocorreram por falta do acessório em passageiros.

A CET afirma que está intensificando a fiscalização do cinto no banco de trás, tanto que as multas do ano passado, apesar de baixas, já são o dobro das registradas no ano de 2008. Segundo a CET, a quantidade vai aumentar ainda mais por causa do reforço no quadro de agentes - atualmente há 2,4 mil.

Cadeira. A engenheira Cecília Iida, de 36 anos, sempre foi usuária do cinto, mesmo no banco de trás. Um descuido aconteceu quando voltava de uma viagem a trabalho, em agosto de 2001. "Naquele dia, eu estava cansada e por isso deitei. E o cinto também estava para dentro do banco, por isso não usei", comenta.

Justamente nessa ocasião, ela sofreu um acidente que a deixou numa cadeira de rodas. "Eu fui jogada contra o teto duas vezes e na terceira apaguei", diz Cecília, que sofreu uma lesão medular. Depois, passou a ter uma rotina na qual a cadeira de rodas não é motivo para infelicidade. Pratica dança e faz teatro - e está até mesmo em cartaz com uma peça no Teatro Dias Gomes. Ao andar de carro agora, sempre utiliza o cinto, independentemente do lugar. "Nem preciso pedir para os amigos usarem. Contribui o fato de eu estar numa cadeira de rodas e eles verem isso."

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