Só seis meses para cuidar do filho, em uma cela

Como vivem as mães de Tremembé 2, prisão adaptada para elas

VITOR HUGO BRANDALISE / TEXTO, TIAGO QUEIROZ / FOTOS, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2011 | 03h03

São bebês saudáveis, que pesam entre 3 e 6 quilos. Têm de 26 dias a 4 meses de idade e acordam às 6 horas para mamar. Vivem ao lado das mães, 24 horas, todo dia. Nasceram em cidades do Vale do Paraíba e logo foram levados para casa: vivem os primeiros dias de suas vidas dentro da cadeia, junto com as mães presidiárias. Entre novembro e janeiro, as crianças completam 6 meses - é quando mãe e bebê, obrigatoriamente, terão de se separar.

A Penitenciária Feminina 2 de Tremembé, a 133 km de São Paulo, foi o primeiro presídio do Brasil com projeto arquitetônico adaptado para mulheres - tem atendimento específico a presas que acabam de dar à luz, por exemplo. Desde a inauguração, em abril, dez bebês nasceram em suas instalações. Vivem hoje na "área de amamentação", maior melhoria sobre outros presídios do Estado. Pela primeira vez, uma equipe de reportagem teve acesso ao local.

Comparada a outras unidades, pode ser considerada luxuosa: tem banho quente, berço novo, roupa de cama nova, brinquedos novos. Mas, para as mães, isso tudo simboliza também uma inevitável separação.

Seis meses é o tempo que as crianças podem viver no presídio - o mínimo para amamentação, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), e o máximo definido em São Paulo pela Secretaria de Administração Penitenciária (SAP). É também o prazo que toda presidiária sabe de cor.

É quando expira o período que Fábio (todos os nomes de crianças são fictícios), de 4 meses, poderá ficar com a mãe, Poliana Oliveira Lourenço, de 23 anos. "Prefiro nem pensar. Passo o dia todo com ele, é meu amigo, meu companheiro, desabafo para ele, me conforto com ele. Tirá-lo de mim é pior do que ficar presa 20 anos", afirma Poliana, que responde por tráfico de drogas - como metade das 526 presas que hoje estão na P2 de Tremembé. "Mas tenho esperança. Cada vez que as grades verdes se abrem, penso que é meu alvará (de soltura) e vou sair antes de ele partir."

Entre as mães com data marcada para deixar os filhos, o principal sentimento é angústia. "Cresce à medida que se aproxima a data. Elas ficam inquietas, choram muito", disse a diretora de reintegração da unidade, Ligia Toledo. "Muitas têm a primeira experiência de maternidade aqui. Com a vida que levavam antes, não davam atenção aos filhos. Aqui, elas ficam o tempo todo com eles e se apegam como nunca."

Adoção. Há casos em que as mães sabem que vão perder o filho, mesmo depois de deixar o presídio - são as presas que, por não terem ninguém para cuidar dos filhos fora da cadeia, têm de encaminhá-los para a adoção. Após convívio direto e diário por seis meses, sofrem muito. "Ela mudou minha vida. E agora, vai ter de ir embora? Fico desesperada", disse Silvânia Aparecida da Silva, de 31 anos, com a filha Natália no colo. Antes de ir para a prisão, ela teve outros cinco filhos. "Mas foi com a Natália que percebi que posso ser uma pessoa melhor. Tomei essa decisão. E vou ter de ficar sem ela? Não sei o que fazer."

As mulheres presas na área da amamentação vivem 14 horas por dia dentro das 12 celas - no caso, decoradas com adesivos de bichinhos, balões, parques de diversões, com camas novas, bichos de pelúcia, travesseiros e cobertores. "Quando a porta fecha (às 16 horas), a cabeça fica a mil. Olho para ele, começo a dar risada, a conversar. Mas cada vez mais, imagino a tristeza da separação ", conta Michele Fortunato, de 24 anos, mãe de Alexandre, de dois meses. "10 de janeiro, 10 de janeiro... a data que ele vai sair fica pregada na minha cabeça."

Carência é outro sentimento comum - desta vez, em toda a prisão: das 526 presas, 15 receberam visitas íntimas nos últimos cinco meses. "Elas se sentem abandonadas. Então, incentivamos as visitas de outros familiares. Equipamentos como brinquedoteca e playground incentivam a presença da família", disse a diretora do presídio, Márcia Romero.

Apesar dos serviços específicos - como escola e padaria artesanal -, para quem acompanha o sistema penitenciário, a iniciativa é tímida. "São dez vagas de amamentação para 500 presos. É pouco", disse a advogada Sonia Drigo, da coordenadoria da Pastoral Carcerária Nacional. "Já o presídio feminino de Santana, o maior do País, recebe centenas de presas grávidas do interior. A demanda é muito maior."

Quando se aproxima a data de a criança partir, o atendimento psicológico aumenta. "Mas não tem jeito. Quando fico sozinha na cela, penso que é a história do meu filho que estou mudando", disse Jussenilda Nunes, de 28 anos, mãe de Samuel, caçula da amamentação. "Ele vai crescer e vai saber: nasci em uma prisão. Torço para que seja vencedor e sirva de testemunho de que a gente venceu."

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